quinta-feira, 5 de março de 2009

Seu Antonio

Seu Antonio

Amigos, ainda não sei colocar imagens aqui, mas viram que na postagem anterior as letras aumentaram? Pois é, foi um aprendizado do acaso que favorece imensamente a leitura mesmo àqueles de boa visão, mas vou dar uma dica pra quem visita páginas da Net com letras bem miúdas. Lógico que são poucos que não sabem, mas basta apertar a tecla Ctrl e rolar o mouse para que a página cresça. Cresce ou diminui até parar de rolar. Parece mágica!


O PURGATÓRIO E O PARAÍSO


Cheguei a Araguari no dia três corrente, “ontonte”, para uma visita relâmpago. Meu pendrive carregava uma pequena imagem retirada do “Google Earth”, um site e programa sobrecarregado de tomadas aéreas dos satélites Landsat, Spot e Ikonos.

Este meu conhecimento é derivado de minha antiga atividade profissional – militar topógrafo.

As imagens dos satélites têm diferenças gritantes. O Landsat fotografa o planeta em tons de cinza, pouco se identifica visualmente os acidentes terrestres. Os rios são veios negros.

O Spot substitui os tons cinza por cores mais agradáveis, tornando possível visualizar estradas, matas, lavouras, sedes de fazendas e outros panoramas.

O satélite Ikonos, com sua órbita mais próxima e através de informações digitais modernas nos traz poses terrestres com uma resolução de setenta centímetros, por exemplo, dá pra se identificar qualquer objeto maior que um pneu de fusca. Pneu de fusca não é um exemplo clássico, mas foi a primeira coisa que eu vi de uma imagem desta e que me marcou - claro que o pneu estava no fusca ou então seria um pneu qualquer.

Minha intenção era pegar a imagem do pendrive e imprimi-la num cartaz, mas três informações erradas, de onde haveria um ploter araguarino, fizeram-me desistir da idéia! A visita era relâmpago.

Parei mesmo num estúdio fotográfico, na Marciano Santos com Teodolino, e mandei copiar. Atendimento muito bom ali. Consegui uma emulsão fotográfica de aproximadamente vinte por trinta, centímetros, daquele pedaço de chão. Se a visita não fosse corrida e eu aguardasse o dia seguinte, o laboratório, através da filial em Uberlândia, ampliaria para o dobro, mas dava pra enganar o Seu Antonio.

Seu Antonio é gente sistemática de Araguari. Este “sistemática” é uma palavra, digamos coletiva, e representa um conjunto de virtudes como honestidade, brio, simplicidade, sabedoria pertencentes a pessoas trabalhadoras.

Seu Antonio teimoso e dona Terezinha teimosa moram, ou teriam raízes, no bairro Goyaz, desde o tempo em que se escrevia assim. São teimosos, no bom sentido, de não quererem morar com os filhos e, por incrível que pareça, têm vergonha que os filhos os ajudem. Como se tudo que os filhos fossem não fosse fruto da dedicação deste casal. Como a inveja habita em mim, neste momento, veja o plágio, “queria ter uns pais assim”.

Assim que cheguei à porta ele estava na espreguiçadeira arquitetando alguma coisa, pois o semblante era arteiro. Saudei-o, “tirando um sarro” ou sacaneando, dos tempos modernos:

- Seu Antonio, o quê tanto fez pra merecer tal descanso?

- O meu pai trabalhou muito e eu não preciso trabalhar.

Ele é assim zombeteiro quando dão brecha e suas tiradas são clássicas de um trabalhador rural.

Imediatamente reclamou-me que o “filho distante” colocou todas as suas contas e de dona Terezinha para serem pagas diretamente no banco distante. Nem mais preocupação com cortes por atrasos, apesar de nunca ter atrasado, eles têm mais. Ir ao banco nunca mais. Como gastar a aposentaria? Os filhos não deixam... Se brincar eles vão devolver ao INSS. Quem planta, colhe, seu Antonio, na proporção bíblica cem por um.

Seu Antonio ainda é artífice da madeira. Digo que é o terceiro carpinteiro do planeta – os dois primeiros são José e Jesus! Como marceneiro, ele é outras infinidades de coisas, produziu a espreguiçadeira bem talhada, nota-se qualquer um o esmero do cara. Ela está acorrentada, pois os “amigos do alheio” levaram o restante do conjunto. Um casal de aposentados é como tirar doce de criança, mas seu Antonio é perigoso. Ele fez umas armadilhas por lá, homem do mato... Tem linha de pescador espalhada que, tropeçadas por desconhecidos, derrubam latas do telhado, calçada em falso que, caso não se pise bem no meio, ela manca e os ouvidos atentos percebem o visitante antes mesmo do soar da campainha. Eu só entro de mãos dadas com ele...

A foto que levei ao seu Antonio é das terrinhas em que foi criado juntamente com dez irmãos, ou seriam onze? Até hoje pertence à família, mas a geração urbana pouco se importa com aquelas paragens, só em férias e olhem lá.

Os olhos dele, após a colocação dos óculos, tiveram um brilho e pareceu-me que iriam regar os cílios. O senhor fortaleza iria produzir uma lágrima, mas um engolir em seco acabou por fabricar um sorriso, largo, satisfeito, saudoso, agradecido...

As terrinhas, o seu Paraíso, dão pouco mais de vinte hectares ou algo em torno de quatro e meio alqueires, linguagem de medida que eles conhecem. Sustentaram-se com apenas a metade das terras, pois a reserva natural é estupenda, quase a outra metade. Os herdeiros são muitos, pois são gerações abençoadas como a quantidade de grão da areia do deserto bíblico.

Ele mostrou-me uma mancha no meio do mato e, tal mancha, fora produzida por uma derrubada clandestina com participação até das máquinas do Batalhão.

O irresponsável quis indenizar o prejuízo, mas seu Antonio falou que era impossível repor a mata e a prova estava ali naquela foto quarenta anos depois.

As terras paradisíacas estão na barra, ou seja, confluência, do Rio Jordão com o córrego Taquaral, abaixo de Amanhece.

Seu Antonio ensinou-me que a localidade tem tal nome devido a uns padres que pregavam na zona rural. Eles, como Jesus em lombo de um burro, iam pelos lugarejos batizando, casando, escomungando e, só lá chegavam, ao amanhecer do dia de domingo.

O título desta crônica está explicado pela metade. A outra metade, o Purgatório, refere-se aos caminhos que se deve tomar para lá chegar. O caminho do Céu é estreito e piramba. Pirambeira é a palavra que se encaixa. Você desce com certeza, mas não sabe se volta e, caso volte, o tempo é mais que o dobro.

Quando lá fomos, inclusive pra atrasar mais ou emocionar a aventura, uma chuva e um pneu furado fizeram-se presentes, além de dois candidatos a mentirosos que insistiam em querer pescar. Acho que só pegariam alguma coisa na piracema. Tão experientes eles que se os deixássemos na beira de uma poça de chuva eles espetariam a minhoca.

Foram doze quilômetros de estrada ruim com seriemas rindo de nós acrescidos de mais duas léguas de asfalto de primeira grandeza e última geração.

Seu Antonio fazia este caminho de bicicleta. Ela ainda está lá encostada junto à marcenaria. Acho prudente que se dê um fim à bicicleta antes que seu Antonio, inspirado na foto, monte na mesma e pedale em busca de sua verdadeira e inesquecível morada.

Além da idade que não colabora muito, seu Antonio ostenta no peito um coração cicatrizado por bisturi. O coração é grande demais e, um tanto convencido, acho que tenho um pedacinho lá.

2 comentários:

Marcos disse...

Eu sou meio suspeito para falar do senhor Antônio. Como eu já disse a ele e á dona Teresinha, se eu tivesse que começar tudo de novo e escolher meus pais, eles seriam os eleitos novamente e sempre.
Para mim e para muitos que os conhecem, são exemplos de honradez, mais que isso: são pessoas incapazes de fazer o mal a alguém. Ter pessoas assim por perto é a maior graça divina. Sou feliz por ter aprendido com eles. Quisera ser tão bom quanto eles para poder repassar aos meus filhos os ensinamentos contidos em cada gesto dos meus velhinhos teimosos.
Só mesmo o Aristeu para tornar públicas as qualidades desses seres humanos tão especiais. Obrigado!

Edilvo Mota disse...

Aristeu, num país pobre de memória e fraco de reverência, você iluminou esse espaço, com o talento de sempre. Parabéns...

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