sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Crônica não Aprovada pela Diretoria

 

Aos professores do Dom Emanuel

Poderia, nesta dissertação, apenas colorir o desenho em preto e branco, que se apresenta como dever de casa, repassado pela organização desta festividade justa, meritória e sempre insuficiente para a grandeza dos agraciados deste dia.
Esta tela não merece apenas um colorido, mas uma moldura cravejada não apenas de suor de extenuação e lágrimas de extrema dedicação, mas também salpicada de sangue nobre do educador. O autor do conhecimento tem sido vítima, em todos os sentidos da violência que se tornou matéria curricular, além do descaso dos gestores maiorais.
Professor é doce, é docente e uma das mais antigas profissões. É aquele que ensina todo o conhecimento, ciência, arte ou técnica, sempre com formação acadêmica e pedagógica. No seu palco ele brinca na educação infantil, é fundamental no médio e produz em massa o superior.
Professores e “amigos são aqueles que desafiaram a genética para fazerem parte da nossa família”. Na maioria das vezes, o aluno tem mais contato com o professor de que com os pais. Lugar de criança é na escola e em tempo integral, logo, o professor, também se torna responsável moralmente pelo berço da educação que lhe falta do lar. O berço tornou-se a carteira escolar, a verdadeira poltrona de viagem em que se conquista o universo.
Ou se tenta reconstruir o pequeno cidadão ou poderá tornar-se vítima do mesmo em data posterior.
Quando enfatizo a palavra vítima quero dizer não apenas da violência, mas de todo o sistema de descaso envolvente.
Ser professor, uma vocação de brilho como antigamente, deixou de ser uma opção boa profissionalmente para os melhores alunos. Os professores que se despontam no horizonte são os piores alunos de hoje de vocês. É a política terceiro-mundista que não se curva à importância da educação, aquela que faz pensar, descobrir, discutir e mudar o mundo para melhor.
Professores trabalham mais fora que dentro de sala de aula, na incansável e faminta produção de índices que abastecem gráficos ilusórios governamentais. Se o aluno não aprender a culpabilidade é do professor e, com isto, perde-se seu abono. Um só aluno faltoso não extraído de mapa demonstrativo, pode acarretar perda considerável, nos parcos vencimentos, para todos mestres envolvidos. A intenção maior talvez seja a escravidão do tempo, não sobrando horas de reflexão da própria categoria. Não se iludam que a manipulação de mandatários sobre de sindicatos seja algo inacreditável, é corrente e consequente, tornando-se um muro de contenção às aspirações que sobem e difusão às determinações que descem goela abaixo.
Existem professores que, como tal, fazem história na política, mas quando chamados de professor, como constava na urna eleitoral, refutam tal tratamento de professor, exigindo o tratamento do cargo político, sempre transitório, enquanto a designação de mestre ou professor seja eterno. Não tenho dúvidas que na caminhada a um plano superior existem professores na vanguarda e políticos na retaguarda, podendo variar dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Quero lembrar rapidamente Rubem Alves que, num trabalho admirável, chamou professores de eucaliptos e educadores de jequitibá. Professor tem sido aquele que nasce e cresce enfileirado, todos parecidos e obedientes ao corte enquanto os educadores têm uma história, um ecossistema inteiro, um lugar, uma posição de destaque grandiosa e que não se submete. Tal crônica, como reabastecimento nas jornadas educativas, deveria ser a oração matutina e noturna dos mestres e o vigor nunca desapareceria.
A lengalenga salarial dos professores começou não sei quando, mas vai terminar não sei nunca. Se a Educação não tem preço não existirá também, em contrapartida, salário digno de tal carreira.
Não pensem que é falta de investimento na Educação que deixa o Ensino Público ruim, mas o mau uso nos diversos escalões por onde a verba passa. Em 2010 levantou-se que o custo mensal de um aluno privado era de R$1130,00 e do aluno público R$1100,00. Tanto o público como o privado custam menos que o menor infrator internado que é de R$2.000,00. Um presidiário custa R$3.000,00 mensais aos cofres públicos.

Os professores sempre foram meus melhores amigos e, uma professora, tornou-se minha consorte.
Sempre fui um aluno exemplar no rendimento, mas não o era na disciplina, tanto que tomei alguns puxões de orelha, reguada e alvo de toco de giz arremessados pelos mestres da pontaria. Nem por isto ou outros castigos constrangedores, comuns porém na época, fizeram-me deixar de colocar todos os meus professores no mais alto da minha galeria de ídolos.
Tenho assistido e colaborado nos passos firmes e decididos da Professora Euzenita, personagem principal do palco da sala de aula por até três períodos. Lembro-me de buscar, nas embaixadas de língua espanhola, material que a auxiliasse como mestra pioneira de tal idioma em Goiandira. Ela, literalmente, tira do próprio bolso para contribuir na formação de seus alunos.
Está na hora de vocês fazerem uma greve ao contrário.
Pelas mãos de vocês, excetuando os analfabetos do ABC, passam cem por cento dos eleitores, cem por cento dos políticos, cem por cento dos comerciantes, cem por cento dos consumidores, cem por cento dos industriais, cem por cento da mão-de-obra, cem por cento dos juízes e cem por cento de nós condenados em geral.
Eu não entendo como alguém que faz a cabeça dos outros não se coloca lá dentro.
Curvo-me a todos vocês que, num campo de batalha, onde o quadro é negro, fazem pó da ignorância com a empunhadura da pequena espada branca denominada de giz, desembanhada na eficiência do conhecimento
A contra greve que proponho já é inerente a vocês, é o redobrar de meios, tempo, dedicação, suor, impaciência, noites mal dormidas, excesso de avaliações e um aumento de reprovações, pois um cidadão, com educação forjada, consegue saúde, segurança e salário aos professores, não exatamente nesta ordem.
É pedir muito, eu sei, mas não há outra saída, vocês são o canal da disposição e, o como se fazer, deverá ser mero detalhe para este exército que ocupa corações e mentes em todo território.



domingo, 21 de setembro de 2014

Dia da Árvore


Quarenta Anos depois

Meu primeiro incentivo à literatura ocorreu há exatos quarenta anos. Numa redação, na época chamada de composição, sobre o Dia da Árvore, fui agraciado com um diploma de Honra ao Mérito pelo meu desempenho como autor da melhor redação do Grupo Escolar. Este diploma, não sei o que minha mãe fez dele,  continha assinaturas de vários figurões nacionais; lembro-me, por exemplo, das assinaturas do Rei do Futebol e de Jarbas Passarinho, Ministro da Educação e Cultura.
Talvez, naquela época, meu olhar infantil tenha enfatizado a árvore como portadora da sombra, dos frutos e abrigo dos pássaros. De lá pra cá outros conceitos se acumularam, tanto nas experiências e quanto ao estudo sistemático protetor. Como topógrafo, sempre nos limites da cidade e da zona rural, onde os bosques têm mais vida, sempre evitei o abate dos vegetais da linha de visada, ainda que aumentasse os trabalhos. Na exuberância amazônica, o espanto da grandeza; na força vital do agreste, a resistência da vida e, nas torturas do cerrado, a vitória do verde sobre cinzas.
Amar a natureza não é uma opção pessoal, mas uma atitude ferrenha diária, ainda que tardia, por toda a sociedade. Estamos no limite e, sem consciência, será a instalação derradeira do caos.
Há uma frase atribuída a Lincoln, o presidente americano libertário, assim: “Se me derem três horas, para derrubar uma árvore, ficarei duas horas e meia amolando o machado.” Assim deve ser nosso procedimento, pois uma árvore para ser cortada só mesmo em último caso e depois de esgotados todos os estudos em favor da mesma. Decepar uma árvore, quando a tecnologia nos permite transplantá-la, é um tiro no próprio pé.
Quem sabe o que faz e o faz por ímpeto do mal, receberá sua paga havendo choro e ranger de dentes. Derrubar uma árvore, intempestivamente, é cortar lenha para a própria fogueira.
Cortar uma árvore, além de ser impiedade ao ecossistema, pode ser manifestação de loucura. Só os loucos acham que, cortando as árvores, deixarão de ser crucificados ou enforcados pelo crime cometido.
Os frutos da árvore que se destacam são lápis, cadernos e livros, mas nem sempre a história registra que os portadores do conhecimento sintetizaram sabedoria, afinal “A tristeza da árvore aumenta quando ela vê que o cabo do machado também é de madeira.”

sábado, 6 de setembro de 2014

Cartas em Blog


Carta Aberta ao Amigum

Meu Amigum,

Ontem fui a Araguari. A BR 050 duplicada está uma maravilha, apenas um ponto perto do Jordão é que ainda está por acabar. Bom que a velocidade diminui e, pelo menos, fico a imaginar em que vicinal se entraria para chegar na Barra do Taquaral, aonde se escreve o “Era uma vez” da sua vida.
A cidade está muito movimentada. Cavaletes de campanha eleitoral por todos os lados. Até seu xará Alvim, hospital demolido, reluz diante olhos, estupefatos meus. Tomara que os carpinteiros ou marceneiros estejam recebendo por isto. Meu sobrinho, que trabalha com placas e letreiros, se apeteceu em trabalhar apenas para o tiozinho federal do Rap, aquele que balança bunitim e redondim. Meu sobrinho já levou calote eleitoral em propagandas feitas, nada mais natural e óbvio. O Luiz Porcão, fazendo jus ao nome, é o que mais tem cavaletes espalhados, como batatinha, pelo chão. Parece-me que o tempo passa e os partidos, mas os políticos e os balançadores de bandeiras são os mesmos.
Não resisti e fui no Bairro Goiás, para não perder o velho costume e parei na frente da residência 109. Vi uma cerca elétrica e me preocupei com o gato Torresmo e aquela folgosa pomba do bando. Pensei: “Papagaios, o quê estou fazendo aqui?” Quando dei por mim já havia apertado a campanhia. Esperei como sempre aqueles velhos passos firmes, mas ninguém atendeu. Apertei novamente com os olhos esfregados e ainda pude ver o acúmulo de poeira. A casa estava realmente sem vida. Jornais foram atirados no alpendre e já não eram boas-novas. Aquele Fiesta laranja bombeiro marcava presença. Lembrei-me rapidamente de quando o “compramos” na Cidade do Automóvel.
Voltei para o carro. Senti um gosto de café nos lábios e parti com a alma inebriada.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Os Troncos dos Ipês



Ipê da vida

Foi uma operação orquestrada e rápida. Um mutirão de maus. Em menos de um dia dizimaram os ipês que floriam a Avenida que dava boas-vindas aos visitantes e abrigavam os gorjeios do passaredo. Uma entrada e saída triunfal de Goiandira onde não se vê o mal que se abriga e obriga.
Uma fileira de troncos nus dilacerados sem piedade agora se estendem num grito mudo de incompreensão generalizada; mortes sem aviso prévio ou estudo de prolongamento da vida, onde a beleza se espanta de colorido, principalmente quando tudo fica tórrido e intolerável.
No livro de José de Alencar, denominado “O tronco do ipê”, ficamos diante uma estória de decadência de um lugarejo onde floriam ipês e vida que se transformaram mutuamente em troncos murchos e decrépitos.
Assim se pinta nossa cidade, outrora um local convidativo limpo e arejado, transformada, num mandato apenas, em deserto escaldante governado pela truculência.
Talvez existam pareceres técnicos-científicos versando sobre a inviabilidade de tal espécie frondosa ou de flexibilidade para uma nova urbanística, mas antes de qualquer subterfúgio explicativo há o ranço abraçado à rivalidade política. Derrubar, independente de custo, o que foi feito pelos adversários porque eram incompetentes. Há de se temer que se derrube também moradias edificadas por antecessores plantadores de ipês, símbolos da Nação Brasileira.
Ainda que se alegue preocupação com o futuro não cola, pois nenhum mandatário de plantão pensa em algo além do próprio mandato que, no caso, não tarda, mas com tempo suficiente para não deixar nenhum espólio para o herdeiro e o povo.
A natureza, no mesmo dia da poda infernal, fez com que o céu chorasse acompanhado de estrondos e ainda foi pouco, pois se diz que Deus nos perdoa sempre, mas a Natureza nunca e, há de se ter, pele Lei de Causa e Efeito, o troco dos ipês.

domingo, 3 de agosto de 2014

Para o dia das mães

Ela

Tudo qu’eu imaginar
Já falaram desse ser
E muito há por falar.
Antes de em Deus crer
É preciso suas verdades
Aprender no dia-a-dia:
Repartir com igualdade,
Manter unida a família,
Desperdiçar muito amor!
Ensinar com o exemplo
E num sopro...
Dissipar com toda dor.
Ir aos domingos no templo,
Atarefar-se um tanto,
Não dormir pesadamente,
Esconder o doce pranto,
Enfrentar o de repente,
Ter muita força nos braços,
Ser delicada qual rosa,
Ensinar os primeiros passos,
Puxar um pouco a prosa,
Ser um porto seguro,
Tirar da boca ao filho,
Espalhar o que é puro,
Dar nas virtudes mais brilho!
De quem escrevo se sabe
Que todos livros não cabem:
É mais alimento que os pães,
É mais fiel que os cães.
Quem é? Faça a rima acima.

Procurando briga no dia das mães,



(Definição) Mãe – Qualquer fêmea  que deu à luz uma ou mais crias.

Hoje é dia das mães!
Muitos quitutes na mesa
E variedade de pães.
Embrulhinhos com surpresas.

Que vão arrancar emoções,
O amor tão atingido
Em pedra, panos, loções
E um ramalhete colorido!

O almoço é fartura
Guloseimas sem fim.
A dieta depois cura,
Mas filho gordo a mãe quer sim.

Vai ter prosa de arrasar,
Os mais velhos gargalharão,
Mais novos no celular
Pouco compartilharão.

Tenho a memoria que esvai,
Não me leve em consideração,
Não me lembro de dia dos pais,
Com tamanha empolgação.

Talvez só tenha existido
Um simples toque no fone,
Não estou entristecido,
Frescura não é pra homem!

Nosso dia é bem depois
Num domingo feio que vem
Que se enfeite apenas o arroz
No mês a gosto de quem.

domingo, 27 de julho de 2014

Eu vos deixo a paz...



“Onde houver ofensa que eu leve o perdão”

Durante quase toda a minha vida literária escrevi para poucos. Uma ou outra crônica encontrou espaço em jornais e revistas que se perderam com os ovos da feira ou foram debulhados em banheiros públicos. Hoje a tela é porta de banheiro onde se publica de tudo.
Minha diversão principal infanto-juvenil era ler. Devorei muitos compêndios ecléticos, sem dizer que, na prática, escrevia certo minha história por ruas tortas. Escrevi muito. O nome que davam eram composições e então compus muito. Escrever é uma arte maldita. Ainda hoje é uma profissão, como a de prostituta, que não foi reconhecida. Os escritores se esparramam pelo chão.
A interpretação do que se escreve é que são elas, tanto que se divergem religiões oriundas de um mesmo texto ou caminho, vida e verdade. Certa vez um texto de Mário Prata foi incluído pelo Ministério da Educação em um concurso de validação médica e, o próprio Mario Prata, deu versões diferentes do gabarito, tirou zero.
Hoje temos blogs, flogs, facebook e tantos inúmeros instrumentos para se propagar ideias, fatos, uma história, porém, esta facilidade, nos tem inundado com um besteirol sem tamanho, ainda que esquecendo-se os erros crassos portugueses, aventando-se apenas nas mensagens pueris.
Opiniões descabidas e fomentadoras de objetivos insanos são absorvidas como algo verdadeiro e inquestionável porque ainda, segundo Tomas Hobbes, o homem é o lobo do próprio homem.
A propósito um dedo médio em riste não é para que todos nós tenhamos prazeres sexuais, mas que todos os tipos de males nos acometam... Ou não?