segunda-feira, 2 de março de 2009

Diário de um Poeta - Capítulo Primeiro

Vou tentar postar um manuscrito, quem sabe um dia um livro, cognominado Diário de um Poeta.


Acho o prefácio de uma obra uma coisa muito difícil, então vamos ao sacrifício.


ANTES DE MAIS NADA QUERO ADVERTIR QUE ESTE PODE TER PARTES OU A TOTALIDADE REPRODUZIDAS, MODIFICADAS E, POR FAVOR, MELHORADAS.

Por várias vezes tentei reunir meus poucos escritos em um caderno. Certa vez fui até um pouco longe, ou seja, tive reunido quase duzentos pensamentos e outras tantas crônicas, mas tive a infelicidade de confiar em um fã e lhe emprestei meus poucos escritos. Até hoje não tive de volta minha fortuna da adolescência. Tenho quase certeza que com um pouco mais de dedicação poderia ser um escritor profissional. Atendendo a “insistentes” pedidos de amigos estou sonhando em ver esses manuscritos encerrados entre duas capas duras e em primeiro lugar nas vendagens das livrarias brasileiras, quiçá do mundo. Há, Há, Há. Talvez aquela inspiração de antes, dos tempos de garoto, jamais retorne, mas esforçarei sempre para continuar criança e meus pés sempre firmes nas nuvens.

O maior orgulho de um aspirante a escritor é ter trabalhos publicados. Meu primeiro trabalho publicado foi em 1976, quatorze anos, no Jornal Gazeta do Triângulo, em Araguari-MG. Todos nós, alunos da 7a Série, deveríamos fazer uma redação sobre o dia das mães e eu arrebentei. Considero o trecho a seguir minha maior obra-prima, tanto que é o primeiro capítulo de um romance que venho rabiscando há décadas. Quem levou para o jornal foi minha professora de religião. Por mais que o redator cortasse ainda deu meia página de jornal. É também um ótimo passo iniciar com um trabalho em honra a maior criação de Deus.

Dias das Mães

Mãe negra (O que é ser mãe)

Eu nasci numa favela. Naquele lugar onde as estradas tortuosas, cheias de espinhos, de lixo e de pedregulhos é o caminho certo. Naquele lugar onde a pobreza que há na cidade deixa de ser pobreza e passa a ser fineza. Naquele lugar onde a criancinhas por não terem o que comer, choram. Naquele lugar onde as criancinhas depois de crescidinhas, mesmo sem ter muito comido, têm as barrigas maiores. Naquele lugar onde ninguém quer viver, mas que, às vezes, escolhe para tal sem o querer. Naquele lugar onde os principais personagens são as pessoas, principalmente as mulheres, que foram rejeitadas pela sociedade e expulsas da própria casa por suas próprias famílias.

Saíram de casa por causa de um erro, e para lá foram aumentá-lo, reproduzi-lo, fazer outros mais erros.

Respondei-me: o erro é humano???

Muitas pessoas quando erram desculpam-se em face de tal provérbio. Vivem-no repetindo. Mas, porque não repetem-no pelos infelizes erradores? Por quê? Por quê? Por quê não os perdoam? Porque não os encaram perante a realidade e ao invés de criticá-los os apoiam para que não fujam para este mundo tão submisso? Onde está a “Solidariedade Humana” e o “Vamos Caminhar Juntos”. Neste mundo apareci. Meu pai é um qualquer. Um desses que andam por aí sem ter o que fazer. Meu pai que não foi pai e cujo pai ignora minha existência. A mulher que me fez nascer não é minha mãe. É verdade; pois uma mulher só pode se julgar mãe, quando nos faz nascer, nos faz crescer, nos faz amar, nos faz ser gente diante de todos. Enfim, nos faz ter orgulho do seu quase infinito trabalho de conduzir nossa vida, nossa cultura; com amor, carinho, paciência e dedicação.

Uma coisa que admiro na mulher que me fez nascer, foi que, ao me ver em vida, e sabendo que, se ficando com ela morrería-mo-nos os dois de fome, foi me ter posto na porta de uma rica casa.

A madame (dona da casa...) acordou com o meu choro. Abriu a porta e resmungou minha presença:

“Que estará fazendo esta hedionda criança aqui?”

Esse foi o pensamento da pessoa rica sobre quem a mulher que me deu a luz havia depositado tanta confiança.

Aquela rica madame olhou-me com menosprezo. Viu-me em frangalhos, esticado pelo chão, chorando de fome e de frio, ainda teve o mau pensamento de chamar-me de hedionda figura.

A cozinheira negra que também já havia chegado, viu que a sua patroa pouco se importava comigo. Tomou-me nos braços e me fez dormir. Ninou-me com uma velha canção africana. Percebeu o ato de uma mãe infeliz.

Quando a madame havia se retirado, aquela velha negra correu comigo nos braços. Levou-me para sua modesta casa, mas asseada. Mudou de casa. Mudou para outro bairro distante. Estava com receio de que uma pessoa má tirasse-me de seus débeis braços.

Ato de heroína. Ato de mãe. E, realmente, aquela velha negra foi minha mãe. A alma da negra foi mais alva do que qualquer outra.

Ela trabalhou para mim. Sofreu por mim. Educou-me. Embora não sendo a mulher que me fez vir a este mundo, ela foi minha mãe. Mãe negra. Mãe boa. Mãe cheia de graça. Mãe que, ao trabalhar para “as senhoras da cidade” lavando roupas, não pensava em si mesma, mas, na pessoa que escolheu para ser seu filho...

Eu já havia feito quinze anos, quando terminava o curso ginasial. Era o mais aplicado da classe e estava combinado que eu receberia o “Primeiro Prêmio”. Dali eu deixaria de ser criança e, enfrentaria o mundo como um homem. Mandaram-me convidar minha mãe para receber meu diploma e prêmio. Ali seria dado o primeiro passo para que eu pudesse ajudar a mãe negra. A mãe que me deu o sentido da vida e me fez enfrentar a luz do sol, lá fora. A mãe que palavras simples ou mais pesquisadas que sejam em ricos dicionários não saberiam explicar um só termo de gratidão, por sua infinita bondade.

Ao receber meu diploma e prêmio ela veria os frutos da semente que plantara. Os gostosos frutos!

Ela estava resfriada, mas não parava de trabalhar. Segundo ela, ela teria que comprar um vestido novo para ir à Festa de Formatura. Ela era simples demais; mas somente para consigo mesma, pois para mim ela fazia tudo, inclusive comprou um bonito terno para me apresentar diante todos.

Quase todos já haviam chegados e a Entrega de Diplomas iria começar, quando avistei minha mãe sendo barrada na Portaria da Escola. Com muita dificuldade ela conseguiu convencer ao porteiro da Escola que era mãe de um dos alunos

Quando chamaram pelo nome de minha mãe para ir buscar meu diploma e prêmio, eu interferi dizendo que ela não pudera ir.

Ninguém da Escola a conhecia. Eu não poderia lhes dizer que aquela velha com pele negra, com uma faixa de cabelos brancos, com um vestido de chita e chinelos aos pés era minha mãe. Não poderia lhes dizer que aquela preta era mãe de um aluno branco mais adiantado da Escola. Senti vergonha. Ela poderia muito bem gritar que era minha mãe, mas não o fez, pois reconheceu o meu ato. Lá estava o fruto dela me ter posto numa escola rica da cidade. Caiu-lhe dos olhos lágrimas. As lágrimas da decepção que presenciara. Seu filho, seu principal amor havia a decepcionado. Só eu notava aquela preta sair em prantos...

Eu não agüentava mais esperar aquela entrega de diplomas terminar. Aqueles minutos pareceram-me séculos. Queria me libertar daquilo, correr ao encontro dela e dizer que havia me arrependido de ter dito aquilo, mas não me foi possível nunca mais ouvir aquela meiga voz da velha negra. Ao chegar em casa avistei-a caída ao chão. Seu orgulho fora ferido. Estava morta de desgosto. A velha negra me deu a sua vida. Morrera por mim. Não morrera feliz. Ela era a única criatura que eu tinha. Sou um João-Ninguém. Não tenho família. A pessoa que era minha mãe, pai, tio, tia e tudo mais, eu a matara. Que orgulho sinto dela! Ela, orgulho não sentiu de mim. Tive vergonha. Arrependo-me. Não precisam dizer que sou condenado, pois sou réu de minha própria consciência e ela me condena. Que vergonha tenho de ter tido vergonha. Ela foi minha mãe e eu não fui o seu filho.

. . . . . . . . . . .

Tudo que acabei de relatar-lhes não aconteceu-me, mas é uma verdade que acontece a todos instantes, num qualquer lugar. Neste instante, duvido que alguém não esteja recusando à sua mãe. Nunca recuse à sua mãe. Não seja como “eu” fui.

Se sua mãe é como aquela negra, suba bem alto numa montanha e grite que tens o mais raro tesouro da vida. Um tesouro de valor incomparável.

O segundo domingo de maio é reservado a todas as mães: sejam elas ricas ou pobres, bonitas ou feias, pretas ou brancas.

Creio que todos têm uma riqueza de mãe, mas, às vezes, é uma pobreza de filho. Nem sempre os filhos é o retrato dos pais.

Filhos, se agem errados não culpem os pais. Não culpem as mães, se elas realmente forem mães. Não culpem suas mães, mesmo se elas vivem numa favela. Culpe sim a sociedade que as enviara a este “mundo”.

O amor materno é o mais puro, o mais desinteressado, o único com que se pode contar em todas as eventualidades, tanto na alegria como na tristeza, tanto na glória como na dor.

Sejamos bons filhos. Sejamos filhos reconhecidos e agradecidos. Que nossa mãe receba a nossa sincera e justa homenagem não apenas no “Dias das Mães”, mas que diariamente lhe prestemos a melhor das homenagens sendo filhos bons obedientes, trabalhadores, virtuosos para fazê-la a mais feliz das mães.

Ser mãe é ser tudo, tal como o Padre Almir Ribeiro Guimarães escreveu. Ele escreveu: “Ser mãe não é apenas gerar filhos. Ser mãe é criar, educar, amar, dar-se aos filhos. É sofrer sem esperar retribuição. Tudo isso é duro, mas isso é ser mãe. Isso é buscar o outro por causa do outro, para fazer o outro grande por dentro.

Há mães que não têm amor pelos filhos. Os filhos parecem ser um mal necessário ao casamento. Os filhos são apenas um “peso”. Ser mãe é transformar o peso dos filhos em sentido de sua vida. Ser mãe é pensar nos outros e não em si mesma. Ser mãe é ser uma contínua heroína...”

Mulher se fores mãe, orgulha-te, pois “uma mulher pode ser mãe de uma nação inteira”.

1 comentários:

Edilvo Mota disse...

Beleza, Aristeu,

linda introdução para o livro..

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