sábado, 15 de agosto de 2009

Seu Antonio Cara de Paulo






Aventura Ferroviária IV


O Batalhão Mauá, de Araguari, teve uma participação intensa na malha ferroviária do País. Entrou em campo também nas rodovias e sempre com o mesmo sucesso.
Nunca andei nos trilhos, mas sempre louco e emotivo. Na imagem acima, um observador atento poderá ver toda minha irreverência, em relação aos amigos, apesar de recruta ousava estar desuniformizado – atente para o garfo pendurado no botão da farda.
Eu sou este aparente risonho. Aparente porque meus dentes, nesta época, eram projetados pra fora por falta da ortodontia. Não carrego mais este falso sorriso, pois meus dentes verdadeiros foram substituídos por falsos, mas que produzem sorrisos verdadeiros.
Esta locomotiva, à entrada do Batalhão de Araguari, é um resgate histórico dos áureos tempos da ferrovia a vapor.
Ainda sobre esta locomotiva há uma história muito interessante... Pelos idos de 1976, a confirmar, o Batalhão Mauá quis fazer uma comemoração em que o bolo fosse uma cópia idêntica da locomotiva. Óbvio que não se tinha os recursos de hoje em dia, mas um confeiteiro da Panificadora e Lanchonete Super-Pão edificou tal bolo. Manualmente cada parafuso da máquina foi torneado de um bastão de chocolate. Sei disso porque eu trabalhava como chapeiro nesta lanchonete.
Não me lembro do nome do artista confeiteiro, mas ele era reconhecido como tal. Trabalhava no local por apenas duas horas e ganhava o triplo da gente. O que ele merecia mesmo era muitos aplausos e de pé.
Bem, esta Maria-Fumaça queimava muita lenha e o encarregado da caldeira era chamado de foguista. O inferno era ali com caldeirão e tudo.
Seu Antonio de Paulo, pai do Antonio Marcos - mentor destes relatos, me disse que conforme fossem as curvas do trem de passageiros, caso as janelas ficassem abertas, a cinza quente entrava nos vagões e chegavam a queimar pertences.
Disse-me também que, nas estações, quando da espera da chegada da composição, à noite, podia-se vislumbrar ao longe a chegada da magnífica – a Maria Fumaça parecia mais um dragão e iluminava com os braseiros a linha por onde passava.
Aquele zigue-zague nos trilhos tornava-se como um vagalume gigante ou então uma serpente de fogo.
Seu Antonio de Paulo, na maior parte do tempo, aparenta e é um homem sério, mas é cheio de troças. Qualquer um, como que hipnotizado, fica atento para ouvi-lo e dar-lhe crédito.
Olhe com que ele me veio:

... Há muito tempo teve uma máquina a vapor que, vindo pra Araguari, perdeu forças na Serra da Bucaína. O Maquinista danou a gritar pedindo mais lenha na fogueira e o foguista fazia de tudo para que a pressão aumentasse. Com muita dificuldade chegaram à estação. No ponto do café começaram a discutir – cada um pondo a culpa no outro pela demora e pelo ocorrido. Era um tal de que faltava fogo e um tal de faltava é maquinista. A coisa ficou séria. A discussão se acalorou e o maquinista passou a mão num pedaço de ferro, partiu pra cima do foguista e gritava que ia matá-lo. O foguista correu para a linha de ferro com o maquinista no seu encalço. Corre daqui, corre dali e o maquinista já estava alcançando o foguista. Era então próximo a um desvio e o foguista, muito inteligente, virou a chave dos trilhos, o que foi suficiente para fazer o maquinista correr na outra direção.

É mole? Não vou dar mais atenção ao Seu Antonio Cara de Paulo, mas um gravador por perto do moleque de oitenta anos iria extrair pérolas de um tempo que não volta mais.

1 comentários:

Marcos disse...

O senhor Antônio Cara de Paulo está cada vez mais contador de histórias. É sempre um agradável aprendizado ouvir as experiências vividas por ele.
Hoje de manhã, ele começou a se aventurar no campo da informática. Já travou um primeiro contacto com o mouse e outros bichos informáticos. Em breve, terá histórias para contar, também, nesta área.
Agora, o mais importante, o senhor Antônio, a exemplo de todos nós, é fã do Aristeu. A admiração é tanta que eu já temo perder o status de filho homem mais querido.
Obrigado uma vez mais por colocar no papel um pouco da história desse ser especial, que é o senhor Antônio.

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