quinta-feira, 24 de junho de 2010

Cara de pau-a-pique


O GOLPE NO BANCO

Doutra feita, ainda comigo em Brasília, num tempo que longe vai, lembro-me de uma agência do BEG, Banco do Estado de Goiás, na quadra 505 Sul, muito movimentada. Por mais que fosse repleta mantinha um equipamento do século pretérito muito mais que imperfeito. Os arredores goianos tornavam tal agência primordial, mas as filas eram intermináveis. O que mais deixa a gente, brasileiros profissionais de fila, enraivecida é a pouca importância que os funcionários de banco dão ao tamanho da fila, pelo menos naquela época, período mesozóico de multas, ou seria paleolítico? Parecia que quanto maior a fila mais ficavam morosos – operação catraca de tartaruga. Outra coisa de impaciência é ver alguém, ao ser atendido, ficar batendo papo com o caixa, sobre assuntos de novela, aumentando ainda mais a permanência na fila de nós outros.
De vez em quando eu era forçado a viver tal filme na Asa Sul, pois mantinha algum tipo de negociação com minha cunhada, cliente daquela espelunca, e havia necessidade de fazer alguns depósitos à distinta. Como a agência era uma espelunca reiterada – e eu também – então ia de qualquer jeito. Chinelo de dedo, short “tak-e-tel” e camiseta cavada era minha indumentária, além de uma cara inimitável de muito coitado.
Naquele tempo e lugar, haviam filas personalizadas: Filas Vips BEG-Master, filas medianas para clientes especiais Super BEG, Fila diminuta BEG-FIVE STARS para executivos e Hiper BIG-BEG Fila, chamada de “que-deus-nos-acuda”, para aquela massa mal-vestida, sudorenta e impaciente, o meu grupo.
Eu, num ato de desespero, apesar do figurino não combinar, entrei na menor fila – a dos executivos. Tinham dois bacanas à minha frente e, eu ali folgadão, me senti o próximo, aquele que é amado. Atendimento muito rápido, assustador aos desacostumados, pois nem deu tempo do guarda ver-me e tirar da fila que não me pertencia. Era lógico e evidente que eu não me tratava de um Executivo, quando muito um Zé do cultivo.
A fila de onde eu devia me figurar é bem capaz de ainda não ter chegado a minha vez. Acredito que muitos entraram na fila do BEG e chegaram ao caixa do Itaú, muito depois da incorporação ou privatização ou fusão ou confusão ou tapeação.
A Caixa, quando chegou a minha vez, parecia que, sádica, estava sedenta a me dizer: “A sua fila é aquela láaaaa... longe”, mas antes dela sonorizar tais pensamentos eu disse num tom de dar dó: “Ôu, dôna, guardaí pra mim”.
Entreguei, parecendo um cigarro de palha, a ficha de depósito com o dinheiro enrolados um no outro. Ela tentou argumentar: “Senhor, esta fila não é para o senhor, é para clientes executivos.”
Com cara, agora de piedade infinita, balbuciei: “Pusquê? Vim nela porcaudequê azôtra tá muito grande e eu num sô bôbo tomem”.
Ela foi firme então: “Senhor está escrito ali naquela tabuleta.”
E eu, retorcido, quase choroso, falando mais próximo, como que envergonhado, disse a ela: “Me adiscurpe... É que num tenho leitura”.
Diante do caso de enorme anomalia, ela atendeu-me alertando que da próxima vez procurasse a fila devida. Acho que de morte...
Ainda disse-lhe do fundo do coração, desta vez sem fingimento: “Muito gardicido” e saí saltitante por mais um golpe na praça.

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