sábado, 16 de maio de 2009

GOIANDIRA - MINHA TERRA FATAL


MORRER PODE SER BOM.

A morte tem mais dignidade no interior.

A Igreja anuncia com o sino badalando, o vizinho confidencia, a rádio convida e o velório fica lotado.

A atual administração municipal inaugurou uma Casa de Velórios em lugar central, o que facilitou demais o culto ao finado.

Lembro que, quando no velório do meu pai, o caixão ficou estendido por mais de doze horas, ornamentado a sala da nossa casa. Por uma quantidade infinita de tempo ainda senti a presença daquela tétrica imagem.

Meu pai foi lenhador e a madeira se vingava agasalhando-o no túmulo

Enquanto isso em Goiandira...

No entorno da cena principal, de boca em boca, as façanhas do ex-vivente vão tornando-o um mito.

Os casos extraconjugais também comparecem frente à cova, o que faz a pessoa viúva diminuir o pranto e encher mais a pá de cal.

Alguns freqüentadores contumazes da coisa fúnebre ainda sorriem, contam piadas e arriscam palpites sobre o paradeiro dos bens deixados.

Tem gente que saiu há tempos do interior, mas deixa testamentado o retorno quando o último suspiro for dado.

Nestas ocasiões o amor mede-se também no desespero do corpo presente. Crianças ficam alheias e os políticos lamentam de verdade o voto que se foi.

Os cadáveres interioranos pertencem, em sua maioria, à terceira idade, provando que o sossego causa longevidade.

No interior não existe enterro de indigente, nem de atropelados e nem de erro médico local, pois os casos, quando há tempo, são levados às cidades grandes vizinhas.

O que posso lastimar, após minha morte, ocorrendo no interior, é que meus órgãos não sejam reaproveitados, mas não faz mal, afinal a minha língua não cabe dentro de qualquer boca; minha cabeça é sem juízo, meus olhos têm vazamentos; meu nariz se mete onde não é chamado; minhas mãos são bobas; minha perna manca; meu fígado foi torturado; rins empedrados e o coração muito rodado...

3 comentários:

Marcos disse...

Como sempre, o Aristeu consegue transitar entre o universal e o local com grande facilidade.
Apenas discordo do título, se continuar escrevendo com todo esse talento, Goiandira o tornará um imortal.
Saudações tricolores.
Marcos

FÁBIO disse...

"A morte tem mais dignidade no interior". Me permita discordar. Vamos relativizar e não generalizar esse episódio trágico, mas que, mesmo trágico, dolorido para ricos e pobres, há aí uma dimensão de classe que é preciso relativar sobretudo na cidade pequena. Quem vai em velório de pobre? Poucas pessoas, geralmente familiares, amigos muito próximos, políticos com segundas intenções, um ou outro curioso...ninguém mais.... Quem vai no velório de rico, muita gente, primeiro porque se torna evento, saí em todos os jornais, das páginas policiais até as colunas sociais, vira notícia para além do "sino da igreja" e o "i" é com letra minuscula mesmo porque não tenho um pingo de crença nessa instituição.... Em relação ao comentarista acima, quero dizer, que, discuta os textos e não o autor do texto, parece que é advogado do autor, seu Marcos por favor né.....

slferreira.lucia76@gmail disse...

Pessoas chatas como você, eu e tantas outras que torram a paciencia dos outros... Não terá apenas um funeral e sim uma grande festa de comemoração...hehehe
E tenha certeza todos os moradores da cidade e região vão dar uma passadinha pra ter certeza que o fato é verdadeiro.

Postar um comentário