domingo, 20 de fevereiro de 2011

NOTA FÚNEBRE


VIDA - UM NEGÓCIO ECOLÓGICO

Nossa vida é cheia de rumos ou um emaranhado de traçados. Bom é não se perder! Projetamos etapas de realizações plenas. Planejamos o sucesso pessoal e familiar, mas os revezes sempre nos presenteiam com o “inesperado” em nossas vidas de labutas. É o choque de gestão. Nossos sonhos desmoronam e nossas esperanças diminuem, mas o tempo, como remédio de uso continuado, acaba por nos recolocar-nos no eixo das negociações. Sãos as crises que, como feridas que deixam marcas, fazem com que não incidamos em erros repetidos. Como simples atores, regidos por um Diretor Maior, no palco da existência, continuamos nossa atuação por uma humanidade melhor.
Certa vez ouvi dizer que Deus ri quando fazemos planos e, então, devo causar a Ele jocosas gargalhadas, pois minha estratégia no grande negócio da vida é não desistir nunca.
Na sociedade que empreendemos, chamada de vida, encontramos incentivadores que, algumas vezes, investem muito na gente e não ousamos decepcioná-los. Meu primeiro fornecedor desta matéria-prima foi meu pai e há mais de trinta e cinco anos seus órgãos faliram. Foi a penúltima vez que, no meu balanço patrimonial, fiquei a descoberto. Compareci na vara de falências da matéria, chamada Cemitério Bom Jesus de Araguari e ali ficou insepulta uma dor que me dilacera, porém agora pouco a pouco. Outros parceiros tombaram e muitos outros se ergueram, mas a primeira bancarrota a gente nunca esquece. Não se tem muita clientela, mas fiéis depositários.
De tudo que faço, ou fiz no ramo do existir, o que me causa maior realização são os relatórios. É a história que fica pra quem fica. Na arte de relatar procuro esclarecer que, em qualquer data, nossa espelunca será visitada pelo Tribuno que poderá intervir com amplos poderes em toda a esfera administrativa. Nossos razonetes hão de especificar lucro e, nosso fundo de reservas, há de nos proporcionar saques de caixa e remessas a um paraíso de conta ilimitada ou, ao contrário, haverá choro e ranger de dentes.
No dia 16 de Fevereiro, dia do repórter, recebi a notícia que me levou a uma reunião extraordinária de avaliação de perda na morada final araguarina, após tanto tempo. Faz parte ser testemunha e regar com lágrimas a ascensão de uma árvore gigante no jardim da paz! Meta cumprida com ética e incontáveis valores negociais. Meu amigo foi promovido. Tornou-se sócio remido de um tesouro onde a traça não come!
Antonio de Paulo Firmino chamava a atenção por sua lisura e dedicação. Não havia segredos que não fossem revelados, pois sua sapiência era uma fonte inesgotável. Poucos como ele são aqueles que não tenham rasuras no livro da vida.
Fiquei decepcionado, pois desde que eu o conhecera, vislumbrava, e não fiz, uma grande entrevista com o mesmo, onde eu relataria, em estado sucinto, num meio milhar de páginas, os seus passos marcantes como o terceiro carpinteiro. Chamava-o de terceiro carpinteiro por José ter sido o primeiro e Jesus o segundo. Tirou da mãe natureza sua cruz de vida. Transformou madeira tosca em móveis de reconforto e pão. Inventou e, com cuidado, suas hábeis mãos, apesar de grossos calos, jazem perfeitas e limpas.
Ele tinha uma voz encorpada, mas aveludada e muito convincente ao se ouvir. Era puro encantamento. Sisudo, não deixava que pairasse um pingo de desconfiança no que dizia. Cheio de troças e brincadeiras, mas que seu jeito sério nos fazia acreditar nos seus “causos”. Então ele colava o queixo no peito e encarava de um modo peculiar a gente com um largo sorriso, tipo assim: “Peguei o bobo na casca do ovo...” Nesta hora eu o chamava de Antonio Cara de Paulo e sorríamos juntos.
Ele não tinha só cara de Paulo, mas jeito de Vicente e semelhança com outros tantos santos antonios.
Conheci tal sede através de uma filial de mesma envergadura – O Antônio Marcos. Esta filial, nascida e criada com mais fomentação de recursos, tornou-se ainda mais fecunda e propiciou aumento dos frutos. Sua base, assim como todo o conglomerado, está abalada, mas foi construída sobre a rocha.
Eu imaginava colher seus dados biográficos numa turnê de turismo, onde eu seria seu motorista. Ele gostava do meu transporte e da minha companhia. Iria com ele a Caldas Novas pra colocá-lo em banho-maria e também ao seu rincão, situado à beira do rio do Jordão, onde matava a sua sede e fome, mas que agora, envenenado, simplesmente mata. Sua língua ficaria solta. Meus intentos apenas amanheceram...
Ficou muito por contar, bastante por escutar, imensidade por aprender, mas a luz se propaga no vazio aparente.
O Antonio Teimoso relutou por sete paradas cardíacas. Estava feliz e realizado, mas incansável em produzir.
Se toda minha vida poética resumisse-se numa frase de lápide, assim seria:
“- Fui atrás do Antonio, este é o atalho do Caminho!”

1 comentários:

Marcos disse...

Aristeu, obrigado por esta e outras tantas manifestações de carinho em relação ao meu pai e à nossa família.
Você e meu pai, com certeza, são duas pessoas muito próximas daquilo que Deus espera dos seres humanos.
Obrigado!

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