sábado, 20 de março de 2010

A lágrima e o sorriso


Um dia um amigo apresentou-me um poema de sua autoria muito bonito com o título de “Bendita Lágrima”.
Retruquei-o imediatamente dizendo: Se existe bendita lágrima eu te mostrarei um maldito sorriso:

MALDITO SORRISO

Maldito sorriso
Que disfarça a verdade,
Que serve como aviso
Da porta que se abre
E a mentira que explode.
Sorriso que encanta
E em qualquer rosto cabe:
Ao desanimado acode
E ao morto levanta.
Sorriso que aprisiona a fera
Quando se declara um coração aberto
Sorriso incontido, nada espera.
Escancara em grito certo.
Sorriso contagiante e instantâneo,
Pólen do amor de Judas eterniza
Que se abre também aos desenganos
Sorriso bandido,
Amigo da multidão...
Às vezes escondido
Alivia o coração.
Sorriso certeiro e bem feito,
Ou gargalhada descontrolada,
Invejam-te e esvazias meu peito!

As Alterosas Mineiras


O Norte de Minas, nas proximidades de Ijicatu, às margens do Rio Jequitinhonha, eu trabalhei como topógrafo. Nunca vi gente tão hospitaleira, mesmo sabendo que estávamos ali pra fazer levantamento da cota de inunda da Usina de Irapé - a qual engoliria toda a sua história e geografia. Num lugar tão inóspito Deus cravejou de diamantes e gente do mesmo quilate.

JEQUITINHONHA

SÃO TANTAS PEDRAS DE TANTO JEITO
E TANTOS PEDROS DE PRANTO EM PEITO!
TANTOS MENINOS COM MUNIÇÃO
E O CANTO VIVO DA PASSARADA!
CASAS MODESTAS DE TAIPA E CHÃO,
MAS FAZEM FESTA A QUALQUER CHEGADA.
CACHORROS MAGROS ENCOLHEM O RABO
E UM SORRISO LARGO ENCHE A ENTRADA.
TUDO É “CUMPADE” QUE ENTRA SUADO
E SECA O POTE EM POUCAS GOLADAS.
É ÁGUA FRESCA COM COR E GOSTO
BUSCADA A BALDE OU MANGUEIRADA
QUE PÕE ABAIXO O SUOR DO ROSTO.
SÃO TANTAS PEDRAS DE TANTO JEITO
E TANTOS PEDROS DE PRANTO EM PEITO!
O RIO ABAIXO COM ÁGUA TURVA
INDICA ACIMA MUITOS BRILHANTES.
EM CADA BARRA E EM CADA CURVA
BATEM PENEIRA COMO GIGANTES
É PEDRA PÃO QUE ÀS VEZES EM VÃO
BUSCAM INCESSANTES SEM MURMURAR!

quinta-feira, 18 de março de 2010

DIREITO HUMANO


Poema enviado

Quem sou eu?
Qual a minha diferença?
Qual a minha preferência?
Sei que sou filho de Deus.

Eu nasci de uma mulher,
Não sou garfo nem colher,
Bendita fruta entre as mulheres.
Sou delicado e pouco me fere.
Desde menino explosão de talento
Um arco-iris no firmamento.

Faço luzes, faço brilho
Aonde quebro a mão.
Sou carnavalesco
De um mundo de ilusões.
Sou terceira via
Dos pecados e dos perdões.

Com o lado esquerdo do cérebro
Travesti meu pontencial.
Se muito eu me requebro
É o meu comercial.
Menina, eu sou "santa",
Purpurina ou homossexual.

Deixei de ser lagarta
E não estou farta da borboleta.
Sou estrela, sou artista
Sou mudança, sou transformista.

domingo, 14 de março de 2010

Saudades da neta


Enfeitiçado

Minha neta chegou,
O tempo parou
Meu Deus, só dá ela,
sempre Bella,
Coisa Bella,
Furacão que alucina
Tudo de pernas pra cima
Os ares teus sopram velas
Brisa Bella, Tagarela.

Se entro na internet
Ela se intromete
E quer Turma da Mônica
No Youtube
E que nada perturbe
A dona da rede,
Mama muito e tem sede,
Devora a tijela,
Magali Amarela.

Nunca mais vi jornal
E nenhuma novela
É DVD do shurek
E overdose de Cinderela
Bolhas ao papavento,
E tinta aquarela,
Dodói na canela,
Cosquinha na costela
Paralisa a Bella
Uma amassadela

Com qualquer bagatela
Ou um monte de bala,
Mas haja cautela,
Com o sono que engana
Não quer ir pra cama
E nem pôr pijama,
Dona Isabella.

Vai entrar na carruagem
E sair de cena,
Sumir da tela,
Coração gela,
Peito arruela,
Lágrima na remela,
E avô bom de sela,
Cai de quatro por ela.

Aventura Ferroviária VIII


O HOMEM DE FERRO

Tenho cinco irmãos e três irmãs. Sou o sétimo filho na cronologia dos partos bem sucedidos. Meu irmão, imediatamente mais velho, o sexto no ranking dos sobreviventes, tem o nome de Eustáquio. Tem como eu, o nome do Santo do dia em que nasceu. No caso dele é o santo do dia 20 de setembro, um santo que foi sacrificado dentro de uma estátua de metal aquecida em brasas. Realmente um homem de ferro. Nossos nomes eram dados pelos padres quando nos batizavam.
Que santo qual nada, na família poderia ser chamado de Zeus Táquio, pois sempre fora o mais formoso, um metido deus grego no seu particular universo.
Apesar de apenas um par de anos nos separar a sua estatura sempre me deixou no chinelo. Nos tempos de criança parecia sempre mais rapagão se comparado à minha e demais figuras infantis em seu derredor. Eu além de ser o mais feio liderava o grupo dos fracotes.
Não tive muita amizade com ele, mas lembro-me dele ter me tirado de enrascadas juvenis com enfrentamento de outros garotos. Ele, assim como eu, desde tenra idade foi um grande batalhador, um incansável.
Lembro-me que ele era um bom aluno enquanto circulava pelo Grupo São Judas Tadeu, em Araguari. Quando foi para o Polivalente o sucesso nos estudos desandou, mas sempre foi inteligente, sem dúvidas. A necessidade de trabalhar deve ter sufocado o excelente aluno.
Entre 1978 e 1979 ele demonstrou toda a sua força nas fileiras do Exército. Assim que deu baixa do Batalhão Ferroviário adentrou, mediante concurso, à Polícia Militar. Durante um ano no policiamento ostensivo agradou aos seus comandantes sendo então transferido para a Polícia Florestal.
Até o ano de 1983 vasculhou matas e rios em busca e apreensão dos inimigos da natureza. Terra, água e ar foram seus elementos de vida.
Embora na graduação de soldado sempre desempenhou funções burocráticas acima de sua competência. Seu dinamismo enciumou seu superior imediato que, num primeiro vacilo, pediu sua remoção para a Capital Mineira.
O vacilo cometido foi não ter tido a coragem de recolher uma rede de um pescador de sustento próprio.
Apesar de estar inscrito no Curso de Sargentos da Polícia daquele ano ele, totalmente abatido e desmotivado, optou por ser agente de segurança da Rede Ferroviária, onde passara no Concurso com méritos, além de contar com vantagens pecuniárias e uma carreira mais estacionária.
Como agente de segurança ferroviária vistoriava estações, trens de passageiros que ainda existiam e os lacres das cargas. O tráfico de drogas era uma tônica também sobre os trilhos. Desvios de carga sempre foi uma rotina brasileira também.
No primeiro ano ficou destacado em Goiandira, onde, nas horas vagas atuava como porteiro de clube e segurança de festas.
Fez uma troca com um amigo e ficou o restante do tempo em Araguari sob o comando do Supervisor Oto, um grande pai e amigo merecedor de todas as honras possíveis.
Por um trecho ferroviário, não muito vasto, ficava até vinte dias em trabalho móvel contínuo, exercendo, nas suas limitações, o poder de polícia.
Para Eustáquio não existe paisagem mais exuberante que a existente aos olhos dum viajante de trem. Pena que as cargas não sabem o que são paisagens e o turismo férreo engatinha no mesmo lugar.
O pior trabalho que ele fez foi durante uma greve da categoria. Seus companheiros grevistas ameaçavam sabotar as linhas, principalmente para Brasília.
Os transportes cessaram, mas o envio de combustível para a capital federal tinha que prosseguir a qualquer custo.
No transporte de tal carga preciosa e explosiva, entre Araguari e Brasília, ele fez a escolta. Não era uma simples escolta, pois ele foi pendurado na frente da máquina com uma carabina na mão e na outra um farol em busca de alterações nos trilhos. Estar preparado para matar amigos é de um esforço sem tamanho.
Até hoje, vez por outra, ainda sonha com esta ação hercúlea onde tudo, Graças a Deus, terminou bem.
Segundo Eustáquio, o transporte ferroviário é tão rico que, somente uma boa varredura dos restos de grãos em vagões-containers, pode vir render trinta sacos de sementes ao dono da vassoura. Coisas que ele viu.
Em 1996, diante à iminente privatização da Rede, foi seduzido pelo PID – Programa Individual de Demissão – e acertou suas contas. No seu cálculo sonhador, a quantia de um vencimento por ano de serviço, promoveria sua independência financeira. Compraria uma Kombi e promoveria transporte e negociação entre os produtos do campo e a faminta zona urbana. Queijos endurecem, frutas estragam, verduras murcham e ovos quebram... Os planos foram por água abaixo, além do quê Kombi será sempre problemática.
Quis fugir à saga da família que é de sermos todos militares o tempo todo e seus olhos quase verdes não o ajudaram como comerciante.
Além da indenização havia a promessa de que todos eles seriam remanejados para outras empresas como seguranças, mas esta parte do acordo não foi cumprida.
Mesmo após cinco décadas de vida a sua força não abandonou seus braços. Tais apêndices permitem-lhe ainda trabalhar duro como pedreiro. Se seus sonhos ainda não foram realizados colabora então para com a plena realização dos sonhos de outros.
Seu amigo Paulinho, Paulo José de Oliveira, outro Polícia Ferroviária Federal também demissionário, ainda circula fardado. Prossegue numa eterna busca da realização da prescrição constitucional da categoria que é sua implementação e aumento de efetivo. Eles podem voltar à ativa ou então se tal for totalmente implantado o Paulinho poderá figurar como Presidente da Associação ou Sindicato da Categoria enquanto o Zeus do meu irmão fará parte do Conselho Deliberativo... Estas foram as últimas palavras de Paulinho na última visita feita. Eustáquio até assinou um livro em solidariedade ao trabalho fecundo e incansável do amigo. Ganhou inclusive um brasão, um verdadeiro distintivo de Xerife do condado – O homem de ferro!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Virtude que some


HONESTIDADE

Honestidade é uma bandeira para todos, mas que poucos empunham. Tida como virtude máxima do cidadão ela segue como uma qualidade em perigo de extinção na sociedade, principalmente a brasileira.
A falta de caráter, nos dias atuais, é tão evidente que, conforme dito por Ruy Barbosa, muita gente sente vergonha de ser honesto.
Honestidade é honradez e onde está que não a vejo? Dizem que na Finlândia...
Honestidade é probidade ou atitude proibida?
A compostura faz-se presente apenas quando câmeras filmadoras inundam o ambiente, por todos os ângulos.
Sejamos honestos enquanto as oportunidades esquivas estejam ausentes.
Honestar é um verbo de difícil conjugação quando a “boquinha” faz-se grande e sujeito da oração.
É muito careta devolver o troco a maior. É estupidez não piratear. É burrice não pular a roleta.
Decência e decoro, irmãos gêmeos da honestidade, também definham em Conselho de Ética composto por membros larápios – nossos indignos representantes.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Se sobrar tempo o que farei?


MINHA AGENDA NÃO É DISPONIBILIDADE ZERO

Como não acredito no acaso, dia 04 de fevereiro, o destino traçado trouxe até minha casa, em Goiandira, reforço de idéia porque não tenho outra, o ilustre senhor jornalista araguarino, editor e amigo, Aloísio Nunes de Faria, além de patrimônio cultural itinerante, lógico.
Foi uma surpresa agradável, mas nem sobrou tempo de estender o tapete vermelho ou coar um cafezinho. Ao menos se refrescou do calor reinante com um sorvete caseiro, porém sem tempo pra escorrer o xarope como cobertura.
Os assuntos fervilharam em minha cabeça, mas poucos foram comentados devido à pressa do grande homem e das suas imensas responsabilidades. Um exemplar fresquinho do “Gazeta do Triângulo” foi trazido e tomou-me parte da tarde em leitura. Não gostei de uma foto da cidade de Araguari, em primeira página, mostrando Caldas Novas como destino onde, com certeza, a caldeira infernal esteja fervilhando ainda mais.
A vinda de tão grata personalidade, apurada por alto, a um minúsculo lugarejo, deve-se ao fato de ser membro colaborador do Patrimônio Histórico Artístico Nacional. Veio, portanto, a trabalho com fins de coleta de informações inerentes à restauração de uma antiga estação ferroviária de Goiandira. Só deve ter aceitado tal missão sabendo que poderia estar comigo um instante sequer. (risos cínicos)
Ele, espantado com a pequenez e tranqüilidade do município, perguntou-me o que eu faço pra matar o tempo por aqui. Respondi-lhe alguma coisa rapidamente, mas agora completo meu relatório de tarefas. Não há vínculo com a obrigatoriedade no cumprimento destas missões, mas um compromisso verdadeiro com a gratuidade.
Não ambiciono qualquer remuneração ou cargos e estou em busca de salvar a minha alma. Para a manutenção do corpo estou garantido, porém sem doenças que me acometam. Vamos ao meu roteiro de ocupação:
01) Todos os dias posso ter ações voltadas à religião, no caso o Espiritismo. Tais como visitas domiciliares a doentes, estudo do Evangelho, Distribuição de Sopa e donativos. O que me cabe, em especial, é uma relatoria das atividades do Centro.
02) Uma pretensa obra literária, intitulada “Aventura Ferroviária”, também toma meu tempo, pois tenho de visitar antigos ferroviários para ir preenchendo lacunas de uma história linda. Enquanto restauram monumentos de pedra eu procuro restaurar a vida daqueles homens de ferro que tinham nestes monumentos a vida depositada.
03) Também costumo me disponibilizar para o transporte de pacientes em tratamento à cidade de Catalão, mais próximo socorro.
04) O espaço compreendido num somatório aproximadamente de três horas destina-se às análises internéticas de leitura e de digitação. Frequento meus favoritos e atualizo meus blogs.
05) Sou “Amigo da Escola” e desenvolvemos o Projeto “Jornal na Escola”. Além de outras contribuições sou o designado para lastrear o editorial, chamado de Carta ao Leitor.
06) Ajudo nas tarefas domésticas e garanto que é o serviço mais duro.
07) Frequento as reuniões da Câmara e clamam-me no Rotary.
08) Planto, colho e distribuo horti-fruti-granjeiros aos próximos.
09) Podo e aguou grama, além de olhar nas árvores ou postes e conferir os pássaros.
10) Beijo a sogra e tenho pesadelos, não exatamente nesta ordem.
É mais ou menos assim e, como criança, não me esqueço de inovações sempre.
Tal agenda está sujeita a alterações tendo em vista que a Casa da Cultura deseja-me de mãos dadas no Projeto recém-implantado: “Pequenos Leitores, Grandes Escritores”.
O Asilo também merece minha atenção e esporadicamente contribuo para com os sorrisos desdentados, mais ainda, não demora muito, deverei vencer sóis e luas ao lado deles.
O resto do tempo eu descanso, leio e escrevo, de novo não exatamente nesta ordem.
Tenho uma providencial rede de balanço posicionada estrategicamente – meus pés apontam pra Catalão, minha cabeça remete-se a Araguari e Goiandira me embala.