sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Amor - Difícil amor!


Amor, difícil amor!

Não há de se chegar à hora derradeira para, na beira de um caixão, declarar a importância daquele ou daquela que se apresente à Morada Maior. Em vida, há o clamor geral, de se declarar ao ente querido, sempre que se oportunizar.
Quero então falar de minha esposa, um baluarte da minha existência. Conhecemo-nos ainda jovens e, como não querendo nada, em dez meses estávamos casados. Patrimônio zero e expectativas mil.
Logo de cara, fomos residir em dois cômodos de lajotas com banheiro coletivo externo, só verão.
Ela, sempre professora e atleta de voleibol, baixinha levantadora, principalmente da bola e da moral da equipe. Lembro-me que no Clube de Sargentos do Exército, em Brasília, ela foi condecorada atleta do ano.
Dentro de casa ela era bloqueadora e cortadora das minhas invencionices que não dariam em nada ou levariam para o buraco.
Ao longo da nossa comunhão os atributos foram brotando de um manancial sem fim, mãe e amiga sem medida, dura.
Recém-casados fui fazer o Curso Militar na cidade do Rio e ela foi comigo. Mais uma vez residindo em dois cômodos e banheiro externo. Uma cidade maravilhosa de imensa, poucos amigos, sem parentes e eu só tinha livre, às vezes, o final-de-semana, sem dizer da falta de dinheiro. O jeito era ver “O Povo na Tevê” com Sílvio Santos. Além do orçamento apertado demorava a receber, pois o pagamento era numa cidade e banco diferente, até acontecer as compensações corria a metade do mês.
Adoeceu por lá e enfrentou tal dificuldade sozinha com hospital longe e transporte espremido de trem. Enquanto isto eu era “massacrado” dentro dos muros do quartel-escola.
Findo o curso consegui classificação em Brasília. Lá sim moramos bem localizados e em apartamento funcional bem distribuído. As crianças vieram logo e ela rejeitou propostas de trabalho para se dedicar à criação dos dois filhos e minha, quase sempre ausente pela condição de militar.
Trabalhando em casa, o nosso endereço devia ter CGC, hoje CNPJ, pois ali se transformou numa fábrica de gostosuras. Era um centro de produção de salgados, doces, artesanatos, sorvetes, bolos confeitados, tanto para nós quanto para vendas, aumentando o orçamento e a dignidade.
Uma pessoa alegre, jovial, sincera, amiga, fiel a todos, contagiante...
Nos revezes da vida, em que fui internado várias vezes, lá estava a leoa me tirando do leito e renovando as esperanças.
Foi uma trajetória de luta pessoal e social. Fizemos dupla nos vicentinos em acudimento aos mais carentes por quase uma década. No meio deles, a professora incorporou seu papel mais digno, e ensinou vários dos seus dotes a eles.
Com os filhos independentes, logo cedo, vitória maior, foi convidada para trabalhar, com um deputado, em uma pasta de governo. Marcou presença como sempre face às suas qualidades de relacionamento e influência bem como dedicação.
São tantas coisas que não são relatadas, são pormenores que agigantam e que, talvez por serem constantes ou corriqueiros, não se lhes fixei na memória, uma rotina que flui gradativamente a gratidão devida.
Acredito ter dado mais preocupação, nestas quase quatro décadas, que os dois filhos juntos, acrescidos da neta.
Aquele tesouro que se apresentava por fora, linda e delineada, era menor que a jazida que se encontrava por dentro.
Como diz Paulo – Combatemos o bom combate e agora resta-nos a coroa da glória. Enquanto não ocorre, vamos peregrinando, parecendo um, unidos pela costela, onde abrigamos dois corações.
Beijos, Amor!

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