sexta-feira, 6 de março de 2009

Diário de um Poeta - Capítulo Segundo

Uma das artes que mais admiro é o teatro. Acho inacreditável a capacidade de decorar textos e ainda por cima representar. O texto do capítulo primeiro, foi decorado a duras penas por mim e apresentei-o perante a classe como monólogo e foi o maior sucesso. Choraram, embora goste muito mais de que todos sorriam.

Já conquistei alguns prêmios literários dos quais tenho bastante orgulho. O mais remoto que me recordo foi de quando freqüentava as aulas do segundo ano primário, no Grupo São Judas Tadeu, em Araguari-MG, para variar. Com uma composição, hoje chamam de Redação, conquistei um diploma de honra ao mérito que abriga assinaturas de autoridades da época como Jarbas Passarinho, Ministro da Educação e do Rei Pelé, eterno ídolo do futebol mundial. Tenho certeza que foi uma composição sobre o Dia das Aves ou o Dia das Árvores. Como não possuo esta relíquia segue uma redação de 5a série, feita por mim sobre o mesmo assunto.



A ÁRVORE


Na data do “seu” João acontecia uma algazarra de meninos. Aproveitavam que ele havia saído e derrubavam tudo que havia à frente. Cheguei lá no momento em que o Ferrabrás derrubava o muro. Entrei e vi todo o desmoronamento do quintal.

Seu João era muito avarento, e não dava sequer uma fruta aos meninos. Foi então que o Ferrabrás vingar-se-ia com a saída do senhor João.

Cada um fazia o seu desmonte possível; uns derrubavam muros, uns jogavam fragmentos às telhas da casinhola do miserável.

Tentei impedir àquela ridícula vingança, mas ninguém resiste a uma praga de meninos travessos. O que me fez reagir foi quando vi que uma turba de trocistas atacava uma árvore indefesa. Arrancavam-lhe os frutos, quebravam-lhes os galhos; prejudicavam o seu João, tanto na comida que a árvore lhe dava, mas como também na sombra que ela lhe doava; enfim, faziam um pandemônio com ela.

Falei com meus botões: “Eles não podem fazer isso, pois a árvore é muito útil na vida do homem; se eles fazem isso, estão prejudicando a nós mesmos, mesmo estando esta árvore nas propriedades do sovina do senhor João...

...Lembro-me quando ele a plantou, ele vinha todos os dias agoá-la; tratou dela com carinho para que depois gozasse da gostosura dos seus frutos, da sombra refrescadora, e mais tarde, quando ela estivesse bem velhinha, aproveitá-la nas combustões que cozem o alimento. É justo fazer isso, mesmo para prejudicar o ruim do João? Por mais que ele seja mau, não merece tal castigo, pois do seu esforço, merece o prêmio e gozo das benéficas utilidades da boa árvore. Será que eles estão conscientes da maldade que estão fazendo? Não, não estão, pois se estivessem lembrariam o dia em que manifestamos o Dia da Árvore, das riquezas que elas nos oferecem! “E, que esse dia é 21 de setembro, o início da primavera, a época em que a natureza se alegra...”

Depois deste justo julgamento, quando fui lançar o meu mais elevado e forte protesto, o seu João chegou resmungando de raiva!

Foi uma debanda! Até eu tive que me debandar, pois em meio de tamanha confusão na sua propriedade ele corretamente julgou toda a praga de moleques culpada. No meio dos culpados corria um inocente; eu!

Por falar em árvore eis uma poesia minha remota em honra às árvores:

A árvore é nossa amiga,

Mas a considero minha irmã,

Pois da Natureza ela é

A coisa mais sã!

Conversei com um pinheiro,

E falei da sua importância,

Em voz meiga retrucou:

- Não gosto de jactância,

Gosto de lhes servir

E não de me gabar;

Quero apenas que venham

Na seca me agoar!

Cabisbaixo eu saí

Depois dessa moral,

E fui parar pertinho

D’um bonito laranjal!

Fui falar com a laranjeira,

Não pude, vinha gente...

Se me vissem conversando co’ela

Pensariam: É um demente...

Quando já tinham ido,

Voltei para a laranjeira...

...Pus-me a caminhar

E desse jeito fui falar:

Árvore da boa laranja,

O seu fruto é uma doçura!...

...Os raios do sol me acordaram,

Por causa da janela e sua abertura...

quinta-feira, 5 de março de 2009

Seu Antonio

Seu Antonio

Amigos, ainda não sei colocar imagens aqui, mas viram que na postagem anterior as letras aumentaram? Pois é, foi um aprendizado do acaso que favorece imensamente a leitura mesmo àqueles de boa visão, mas vou dar uma dica pra quem visita páginas da Net com letras bem miúdas. Lógico que são poucos que não sabem, mas basta apertar a tecla Ctrl e rolar o mouse para que a página cresça. Cresce ou diminui até parar de rolar. Parece mágica!


O PURGATÓRIO E O PARAÍSO


Cheguei a Araguari no dia três corrente, “ontonte”, para uma visita relâmpago. Meu pendrive carregava uma pequena imagem retirada do “Google Earth”, um site e programa sobrecarregado de tomadas aéreas dos satélites Landsat, Spot e Ikonos.

Este meu conhecimento é derivado de minha antiga atividade profissional – militar topógrafo.

As imagens dos satélites têm diferenças gritantes. O Landsat fotografa o planeta em tons de cinza, pouco se identifica visualmente os acidentes terrestres. Os rios são veios negros.

O Spot substitui os tons cinza por cores mais agradáveis, tornando possível visualizar estradas, matas, lavouras, sedes de fazendas e outros panoramas.

O satélite Ikonos, com sua órbita mais próxima e através de informações digitais modernas nos traz poses terrestres com uma resolução de setenta centímetros, por exemplo, dá pra se identificar qualquer objeto maior que um pneu de fusca. Pneu de fusca não é um exemplo clássico, mas foi a primeira coisa que eu vi de uma imagem desta e que me marcou - claro que o pneu estava no fusca ou então seria um pneu qualquer.

Minha intenção era pegar a imagem do pendrive e imprimi-la num cartaz, mas três informações erradas, de onde haveria um ploter araguarino, fizeram-me desistir da idéia! A visita era relâmpago.

Parei mesmo num estúdio fotográfico, na Marciano Santos com Teodolino, e mandei copiar. Atendimento muito bom ali. Consegui uma emulsão fotográfica de aproximadamente vinte por trinta, centímetros, daquele pedaço de chão. Se a visita não fosse corrida e eu aguardasse o dia seguinte, o laboratório, através da filial em Uberlândia, ampliaria para o dobro, mas dava pra enganar o Seu Antonio.

Seu Antonio é gente sistemática de Araguari. Este “sistemática” é uma palavra, digamos coletiva, e representa um conjunto de virtudes como honestidade, brio, simplicidade, sabedoria pertencentes a pessoas trabalhadoras.

Seu Antonio teimoso e dona Terezinha teimosa moram, ou teriam raízes, no bairro Goyaz, desde o tempo em que se escrevia assim. São teimosos, no bom sentido, de não quererem morar com os filhos e, por incrível que pareça, têm vergonha que os filhos os ajudem. Como se tudo que os filhos fossem não fosse fruto da dedicação deste casal. Como a inveja habita em mim, neste momento, veja o plágio, “queria ter uns pais assim”.

Assim que cheguei à porta ele estava na espreguiçadeira arquitetando alguma coisa, pois o semblante era arteiro. Saudei-o, “tirando um sarro” ou sacaneando, dos tempos modernos:

- Seu Antonio, o quê tanto fez pra merecer tal descanso?

- O meu pai trabalhou muito e eu não preciso trabalhar.

Ele é assim zombeteiro quando dão brecha e suas tiradas são clássicas de um trabalhador rural.

Imediatamente reclamou-me que o “filho distante” colocou todas as suas contas e de dona Terezinha para serem pagas diretamente no banco distante. Nem mais preocupação com cortes por atrasos, apesar de nunca ter atrasado, eles têm mais. Ir ao banco nunca mais. Como gastar a aposentaria? Os filhos não deixam... Se brincar eles vão devolver ao INSS. Quem planta, colhe, seu Antonio, na proporção bíblica cem por um.

Seu Antonio ainda é artífice da madeira. Digo que é o terceiro carpinteiro do planeta – os dois primeiros são José e Jesus! Como marceneiro, ele é outras infinidades de coisas, produziu a espreguiçadeira bem talhada, nota-se qualquer um o esmero do cara. Ela está acorrentada, pois os “amigos do alheio” levaram o restante do conjunto. Um casal de aposentados é como tirar doce de criança, mas seu Antonio é perigoso. Ele fez umas armadilhas por lá, homem do mato... Tem linha de pescador espalhada que, tropeçadas por desconhecidos, derrubam latas do telhado, calçada em falso que, caso não se pise bem no meio, ela manca e os ouvidos atentos percebem o visitante antes mesmo do soar da campainha. Eu só entro de mãos dadas com ele...

A foto que levei ao seu Antonio é das terrinhas em que foi criado juntamente com dez irmãos, ou seriam onze? Até hoje pertence à família, mas a geração urbana pouco se importa com aquelas paragens, só em férias e olhem lá.

Os olhos dele, após a colocação dos óculos, tiveram um brilho e pareceu-me que iriam regar os cílios. O senhor fortaleza iria produzir uma lágrima, mas um engolir em seco acabou por fabricar um sorriso, largo, satisfeito, saudoso, agradecido...

As terrinhas, o seu Paraíso, dão pouco mais de vinte hectares ou algo em torno de quatro e meio alqueires, linguagem de medida que eles conhecem. Sustentaram-se com apenas a metade das terras, pois a reserva natural é estupenda, quase a outra metade. Os herdeiros são muitos, pois são gerações abençoadas como a quantidade de grão da areia do deserto bíblico.

Ele mostrou-me uma mancha no meio do mato e, tal mancha, fora produzida por uma derrubada clandestina com participação até das máquinas do Batalhão.

O irresponsável quis indenizar o prejuízo, mas seu Antonio falou que era impossível repor a mata e a prova estava ali naquela foto quarenta anos depois.

As terras paradisíacas estão na barra, ou seja, confluência, do Rio Jordão com o córrego Taquaral, abaixo de Amanhece.

Seu Antonio ensinou-me que a localidade tem tal nome devido a uns padres que pregavam na zona rural. Eles, como Jesus em lombo de um burro, iam pelos lugarejos batizando, casando, escomungando e, só lá chegavam, ao amanhecer do dia de domingo.

O título desta crônica está explicado pela metade. A outra metade, o Purgatório, refere-se aos caminhos que se deve tomar para lá chegar. O caminho do Céu é estreito e piramba. Pirambeira é a palavra que se encaixa. Você desce com certeza, mas não sabe se volta e, caso volte, o tempo é mais que o dobro.

Quando lá fomos, inclusive pra atrasar mais ou emocionar a aventura, uma chuva e um pneu furado fizeram-se presentes, além de dois candidatos a mentirosos que insistiam em querer pescar. Acho que só pegariam alguma coisa na piracema. Tão experientes eles que se os deixássemos na beira de uma poça de chuva eles espetariam a minhoca.

Foram doze quilômetros de estrada ruim com seriemas rindo de nós acrescidos de mais duas léguas de asfalto de primeira grandeza e última geração.

Seu Antonio fazia este caminho de bicicleta. Ela ainda está lá encostada junto à marcenaria. Acho prudente que se dê um fim à bicicleta antes que seu Antonio, inspirado na foto, monte na mesma e pedale em busca de sua verdadeira e inesquecível morada.

Além da idade que não colabora muito, seu Antonio ostenta no peito um coração cicatrizado por bisturi. O coração é grande demais e, um tanto convencido, acho que tenho um pedacinho lá.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Atendendo pedido do Pai Gabriel

Conto uma lenda

Estou muito satisfeito com a escrivaninha doada pelo leitor Antonio Marcos de Paulo. Escrevia em mesas de cozinha assediado por plantas ornamentais e restos de comida. Tenho um defeito muito antigo, é dos tempos em que eu nem tinha o “Curso de Dactilographia”: só sei escrever à mão, quero dizer, na caneta e no papel. A cada linha vão surgindo setas e outras simbologias direcionando-me aos acréscimos textuais ou firulas literárias. É verdade que, a posterior, ao digitar no computador, surgem lapidações reti e rati – ficadoras (exemplo de firula literária), mas no borrão, aparentemente indecifrável, reside toda a arte aristeuniana (outra contribuição do Marcos).

Para difundir este Blog, que ainda não sei inserir imagens e tantas coisas (o etecetara assim fica mais chique), escrevi e-mails aos meus contatos e mensagens orkutianas, exortando-os (esta palavra eu aprendi com a tia Feliz) a lerem-me e postar comentários.

No contexto do convite ironizei que fazia crônicas por encomenda. Não é de ver que um gaiato, gente chegada mesmo, da família Silva com nome composto de profeta e arcanjo, me encomendou uma crônica? Deu-me ainda os seguintes tópicos para citar:

Terrorista italiano; advogado do terrorista; amigos do advogado; razão do asilo político e, como dica, orientou-me que o advogado do “cesare” é o mesmo que tirou certo molusco marítimo cefalópode, de tentáculos retráteis ágeis e escorregadios, anos oitenta, da cadeia militar.

Acho que este meu amigo anda vendo muito “os improváveis”, no Youtube. Deu-me o tema e disse: VALENDO.

Eu, sinceramente, sou um brasileiro desinformado ao extremo e não sei do que se trata, mas posso inventar, então, uma lenda. Tenho um irmão, ou seria pai, que está fazendo uma obra neste sentido, pois ele fez parte, como escrivão de inquérito em que aqueles “comunas miseráveis” eram arrolados.

Vamos satisfazê-lo de um modo ou de outro. Alerto que semelhanças com a vida real terá sido mera coincidência!

Era uma vez um país distante em que os direitos vassalos eram mínimos e o impacto da aceleração do crescimento era o máximo. A classe mandatária detinha o poder e a força, a comida e a dentadura, a tortura e a falta de retidão.

Aflorava neste mundo capitalista, de extrema direita repressora, um ideal trabalhista, pois o que falta ao empregado é tão somente o dinheiro do patrão e nada como uma invasão de terras para tomada do poder. A implantação de um sistema mais fraterno, de preferência com Deus de fora, é uma bandeira forte.

Estes ideais nasceram nos campus de iluminados que não eram nem trabalhadores, mas artistas, cantores, jornalistas e alguns milicos traíras, chamados desertores que o sistema não perdoou. O que possibilitou nos dias de hoje indenizações milionárias às famílias, através dos escritórios reunidos Casa Verde.

Um ideal genuíno não fosse um grande conto da carochinha.

Esse pessoal revolucionário talvez tenham feito um pacto de fidelidade eterna, de repente até com o diabo.

Precisava de dinheiro para implantar um sistema onde o dinheiro seria desnecessário, além de cativar a população, sua vanguarda popular.

A coisa tava russa e do oriente chegaram recursos iniciais de implantação de uma sociedade comuna.

Onde a coisa foi parar? Graças ao capital fácil, de investimento estrangeiro, compraram terras distantes, ao norte desabitado e transformaram-nas em centros de treinamentos dos revolucionários. Os mais aptos podiam tomar cuba e vodka nas fontes.

A coisa foi crescendo e o dinheiro diminuindo que tiveram que consegui-lo por conta própria.

Formaram então grupos patrióticos que tinham nobres missões: assaltar bancos, seqüestrar autoridades, explodir quartéis, roubar armas e “comer criancinhas”.

Eles eram valentes, mais preparados que a força terrestre nacional, mas após alguns embates com a contra-revolução desapareceram, mas com ideais ainda acesos por toda a vida.

Foi um bom momento para se asilar e receber apoio internacional para a acadêmica formação libertina. Unem-se os estudantes e os laços comuns permanecem no pós-doutorado. Quantos sociólogos ostentam diplomas oriundos de “souborno”, em France?

A verdade é que sofreram demais no estrangeiro... Mário Prata e Alexandre Ribondi que o digam. Saudades imensas da terra natal.

Um presidente “vacilão”, filho do comandante revolucinário de 32, fez a abertura dos portos, perdoou os exilados e abriram-se as portas para o sucesso, ou sucessão, aos devassos.

Onde já se viu? Hoje são ministros da casa, genros da justiça, serra sem fim...

Enquanto se aculturaram e aperfeiçoavam-se para o grande golpe, pois não desistem nunca, os partidos nacionais se multiplicaram para mascarar futuros integrantes de mesma cara.

Leva-se o dedo mínimo, mas fica o anel do poder. Falando nisto um sindicalista torna-se o centro dos investimentos comunistas, dos intelectuais e apoio romano apostólico.

Dívida é dívida, mas tem umas eternas. Este sindicalista pertencente ao mar do polvo ficou preso algumas horas, nos idos dos tempos de chumbo. Covardia, mas a Anistia rende-lhe uma mísera pensão de mais de dez salários mínimos mensais.

O advogado do diabo, chamado casa verde, o tirou da cadeia, aumentando a dívida.

O comunismo nunca acabou, está disperso como o joio e quer dominar o mundo, todo o bolo.

Toda causa de Casa Verde, deputado e presidente de partido, encontra foro privilegiado nos palácios. É um advogado com bilhões de reais, extorquidos do infinito Tesouro Nacional.

Os comunas em dificuldades nos fóruns internacionais encontram devolução de favores na pátria amada.

Os filhos desta mãe gentil serão felizes para sempre, em berço esplêndido.

Pra terminar, como moral da estória, pouco sei, mas este pouco me permite filosofar que não existe riqueza fora da esperteza.

terça-feira, 3 de março de 2009

Quem mexeu no meu bolso?

OTÁRIO À VISTA E NA CADERNETA

Sou um brasileiro tipicamente otário – otário de carteirinha.

Deixo-me envolver facilmente com as pessoas, mesmo nos negócios. Também, como se diz, desde o tempo da carochinha, dinheiro de bobo é matula de malandro.

Na cidade grande eu era assim também. Aprendi a ser fiel com todos que me exploravam.

Se eu bebia num boteco “copo sujo”, só ia naquele, todo dia; ficando até mais fácil da Dona Encrenca me achar. Também facilitava a volta trôpega ao lar.

Se eu comprava numa farmácia, as outras jamais me veriam. Acho que também era comodismo ou “tá mais perto”.

Isto também acontecia pra Posto de Combustível, bancas de feiras, lojas de departamentos, padarias, açougues e até concessionárias de veículos.

Não deve ser assim. Temos que ser vigilantes o tempo todo com o comércio que nos ronda. Muitos nos cercam e poucos nos amam.

Tem muita gente enriquecendo com preguiçosos distraídos e otários como eu. Fidelidade é algo de mão dupla.

Vim para o interior e não perdi esta mania de bater na mesma tecla, comodismo talvez ou excesso de confiança.

Posso dar como exemplo citando meu futuro ex-açougueiro, porque pode ser que ele me dê uma explicação palpável e convincente, o que parece impossível.

Quando morava na Capital Brasileira era obrigado a, vez por outra, visitar a terra prometida de minha aposentadoria por causa de alguns parentes, inclusive sogra. Minha volta era com isopores abarrotados de carne de vaca clandestina. Era uma delícia se comparadas com as congeladas dos grandes frigoríficos. Foi mais de uma década comprando do mesmo fornecedor. Povo da capital chega e compra, não licita. Otários!

Em fixando residência minha freguesia continuou, sob a modalidade interiorana muito difusa com o nome de caderneta.

Com o advento da fiscalização mais intensa, pra os ganhos não desabarem, o açougue virou também um misto de boteco e mercearia. A caderneta passou então a incluir outros itens não bovinos ou não suínos.

Sou do tipo de otário que não confere pesos, nem itens, nem somas, nem trocos, mas, por acaso, no dia do acerto, um pouco antes de rasgar a ficha, vi a quantia de vinte e quatro reais numa caixa de doze dessas que descem redondo. Não desceu... Fiquei pasmo, pois havia acabado de pagar a caderneta, de um supermercado de verdade, onde o mesmo item era vendido por dezessete reais.

Que descalabro! Um freguês traído pode trazer muito mais prejuízo que uma chifrada matrimonial.

Um freguês deve ser tratado como um patrão e amigo. Já parei de beber e posso até virar vegetariano por causa disso, mas não pretendo prosperar mais ninguém à custa de idiotices minhas.

Não digo que desta água não beberei, pois o mundo dá muitas voltas e, no interior, os olhos tudo veem, os passos são observados e não tem como se isolar.

O interior está globalizado no olho grande. Não é só o homem da carne não, pois meu pedreiro afilhado ainda não voltou pra terminar o serviço recebido. Os quarenta quilos de ração de postura em que paguei quarenta e oito reais encontravam-se, na esquina de cima, por trinta e seis. O feijão mais caro não cozinhou como esperado...

Pra dizer a verdade chego a ter saudades da capital indigesta.

Basta!

Não pergunte nada, vai me lendo que depois eu te conto.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Diário de um Poeta - Capítulo Primeiro

Vou tentar postar um manuscrito, quem sabe um dia um livro, cognominado Diário de um Poeta.


Acho o prefácio de uma obra uma coisa muito difícil, então vamos ao sacrifício.


ANTES DE MAIS NADA QUERO ADVERTIR QUE ESTE PODE TER PARTES OU A TOTALIDADE REPRODUZIDAS, MODIFICADAS E, POR FAVOR, MELHORADAS.

Por várias vezes tentei reunir meus poucos escritos em um caderno. Certa vez fui até um pouco longe, ou seja, tive reunido quase duzentos pensamentos e outras tantas crônicas, mas tive a infelicidade de confiar em um fã e lhe emprestei meus poucos escritos. Até hoje não tive de volta minha fortuna da adolescência. Tenho quase certeza que com um pouco mais de dedicação poderia ser um escritor profissional. Atendendo a “insistentes” pedidos de amigos estou sonhando em ver esses manuscritos encerrados entre duas capas duras e em primeiro lugar nas vendagens das livrarias brasileiras, quiçá do mundo. Há, Há, Há. Talvez aquela inspiração de antes, dos tempos de garoto, jamais retorne, mas esforçarei sempre para continuar criança e meus pés sempre firmes nas nuvens.

O maior orgulho de um aspirante a escritor é ter trabalhos publicados. Meu primeiro trabalho publicado foi em 1976, quatorze anos, no Jornal Gazeta do Triângulo, em Araguari-MG. Todos nós, alunos da 7a Série, deveríamos fazer uma redação sobre o dia das mães e eu arrebentei. Considero o trecho a seguir minha maior obra-prima, tanto que é o primeiro capítulo de um romance que venho rabiscando há décadas. Quem levou para o jornal foi minha professora de religião. Por mais que o redator cortasse ainda deu meia página de jornal. É também um ótimo passo iniciar com um trabalho em honra a maior criação de Deus.

Dias das Mães

Mãe negra (O que é ser mãe)

Eu nasci numa favela. Naquele lugar onde as estradas tortuosas, cheias de espinhos, de lixo e de pedregulhos é o caminho certo. Naquele lugar onde a pobreza que há na cidade deixa de ser pobreza e passa a ser fineza. Naquele lugar onde a criancinhas por não terem o que comer, choram. Naquele lugar onde as criancinhas depois de crescidinhas, mesmo sem ter muito comido, têm as barrigas maiores. Naquele lugar onde ninguém quer viver, mas que, às vezes, escolhe para tal sem o querer. Naquele lugar onde os principais personagens são as pessoas, principalmente as mulheres, que foram rejeitadas pela sociedade e expulsas da própria casa por suas próprias famílias.

Saíram de casa por causa de um erro, e para lá foram aumentá-lo, reproduzi-lo, fazer outros mais erros.

Respondei-me: o erro é humano???

Muitas pessoas quando erram desculpam-se em face de tal provérbio. Vivem-no repetindo. Mas, porque não repetem-no pelos infelizes erradores? Por quê? Por quê? Por quê não os perdoam? Porque não os encaram perante a realidade e ao invés de criticá-los os apoiam para que não fujam para este mundo tão submisso? Onde está a “Solidariedade Humana” e o “Vamos Caminhar Juntos”. Neste mundo apareci. Meu pai é um qualquer. Um desses que andam por aí sem ter o que fazer. Meu pai que não foi pai e cujo pai ignora minha existência. A mulher que me fez nascer não é minha mãe. É verdade; pois uma mulher só pode se julgar mãe, quando nos faz nascer, nos faz crescer, nos faz amar, nos faz ser gente diante de todos. Enfim, nos faz ter orgulho do seu quase infinito trabalho de conduzir nossa vida, nossa cultura; com amor, carinho, paciência e dedicação.

Uma coisa que admiro na mulher que me fez nascer, foi que, ao me ver em vida, e sabendo que, se ficando com ela morrería-mo-nos os dois de fome, foi me ter posto na porta de uma rica casa.

A madame (dona da casa...) acordou com o meu choro. Abriu a porta e resmungou minha presença:

“Que estará fazendo esta hedionda criança aqui?”

Esse foi o pensamento da pessoa rica sobre quem a mulher que me deu a luz havia depositado tanta confiança.

Aquela rica madame olhou-me com menosprezo. Viu-me em frangalhos, esticado pelo chão, chorando de fome e de frio, ainda teve o mau pensamento de chamar-me de hedionda figura.

A cozinheira negra que também já havia chegado, viu que a sua patroa pouco se importava comigo. Tomou-me nos braços e me fez dormir. Ninou-me com uma velha canção africana. Percebeu o ato de uma mãe infeliz.

Quando a madame havia se retirado, aquela velha negra correu comigo nos braços. Levou-me para sua modesta casa, mas asseada. Mudou de casa. Mudou para outro bairro distante. Estava com receio de que uma pessoa má tirasse-me de seus débeis braços.

Ato de heroína. Ato de mãe. E, realmente, aquela velha negra foi minha mãe. A alma da negra foi mais alva do que qualquer outra.

Ela trabalhou para mim. Sofreu por mim. Educou-me. Embora não sendo a mulher que me fez vir a este mundo, ela foi minha mãe. Mãe negra. Mãe boa. Mãe cheia de graça. Mãe que, ao trabalhar para “as senhoras da cidade” lavando roupas, não pensava em si mesma, mas, na pessoa que escolheu para ser seu filho...

Eu já havia feito quinze anos, quando terminava o curso ginasial. Era o mais aplicado da classe e estava combinado que eu receberia o “Primeiro Prêmio”. Dali eu deixaria de ser criança e, enfrentaria o mundo como um homem. Mandaram-me convidar minha mãe para receber meu diploma e prêmio. Ali seria dado o primeiro passo para que eu pudesse ajudar a mãe negra. A mãe que me deu o sentido da vida e me fez enfrentar a luz do sol, lá fora. A mãe que palavras simples ou mais pesquisadas que sejam em ricos dicionários não saberiam explicar um só termo de gratidão, por sua infinita bondade.

Ao receber meu diploma e prêmio ela veria os frutos da semente que plantara. Os gostosos frutos!

Ela estava resfriada, mas não parava de trabalhar. Segundo ela, ela teria que comprar um vestido novo para ir à Festa de Formatura. Ela era simples demais; mas somente para consigo mesma, pois para mim ela fazia tudo, inclusive comprou um bonito terno para me apresentar diante todos.

Quase todos já haviam chegados e a Entrega de Diplomas iria começar, quando avistei minha mãe sendo barrada na Portaria da Escola. Com muita dificuldade ela conseguiu convencer ao porteiro da Escola que era mãe de um dos alunos

Quando chamaram pelo nome de minha mãe para ir buscar meu diploma e prêmio, eu interferi dizendo que ela não pudera ir.

Ninguém da Escola a conhecia. Eu não poderia lhes dizer que aquela velha com pele negra, com uma faixa de cabelos brancos, com um vestido de chita e chinelos aos pés era minha mãe. Não poderia lhes dizer que aquela preta era mãe de um aluno branco mais adiantado da Escola. Senti vergonha. Ela poderia muito bem gritar que era minha mãe, mas não o fez, pois reconheceu o meu ato. Lá estava o fruto dela me ter posto numa escola rica da cidade. Caiu-lhe dos olhos lágrimas. As lágrimas da decepção que presenciara. Seu filho, seu principal amor havia a decepcionado. Só eu notava aquela preta sair em prantos...

Eu não agüentava mais esperar aquela entrega de diplomas terminar. Aqueles minutos pareceram-me séculos. Queria me libertar daquilo, correr ao encontro dela e dizer que havia me arrependido de ter dito aquilo, mas não me foi possível nunca mais ouvir aquela meiga voz da velha negra. Ao chegar em casa avistei-a caída ao chão. Seu orgulho fora ferido. Estava morta de desgosto. A velha negra me deu a sua vida. Morrera por mim. Não morrera feliz. Ela era a única criatura que eu tinha. Sou um João-Ninguém. Não tenho família. A pessoa que era minha mãe, pai, tio, tia e tudo mais, eu a matara. Que orgulho sinto dela! Ela, orgulho não sentiu de mim. Tive vergonha. Arrependo-me. Não precisam dizer que sou condenado, pois sou réu de minha própria consciência e ela me condena. Que vergonha tenho de ter tido vergonha. Ela foi minha mãe e eu não fui o seu filho.

. . . . . . . . . . .

Tudo que acabei de relatar-lhes não aconteceu-me, mas é uma verdade que acontece a todos instantes, num qualquer lugar. Neste instante, duvido que alguém não esteja recusando à sua mãe. Nunca recuse à sua mãe. Não seja como “eu” fui.

Se sua mãe é como aquela negra, suba bem alto numa montanha e grite que tens o mais raro tesouro da vida. Um tesouro de valor incomparável.

O segundo domingo de maio é reservado a todas as mães: sejam elas ricas ou pobres, bonitas ou feias, pretas ou brancas.

Creio que todos têm uma riqueza de mãe, mas, às vezes, é uma pobreza de filho. Nem sempre os filhos é o retrato dos pais.

Filhos, se agem errados não culpem os pais. Não culpem as mães, se elas realmente forem mães. Não culpem suas mães, mesmo se elas vivem numa favela. Culpe sim a sociedade que as enviara a este “mundo”.

O amor materno é o mais puro, o mais desinteressado, o único com que se pode contar em todas as eventualidades, tanto na alegria como na tristeza, tanto na glória como na dor.

Sejamos bons filhos. Sejamos filhos reconhecidos e agradecidos. Que nossa mãe receba a nossa sincera e justa homenagem não apenas no “Dias das Mães”, mas que diariamente lhe prestemos a melhor das homenagens sendo filhos bons obedientes, trabalhadores, virtuosos para fazê-la a mais feliz das mães.

Ser mãe é ser tudo, tal como o Padre Almir Ribeiro Guimarães escreveu. Ele escreveu: “Ser mãe não é apenas gerar filhos. Ser mãe é criar, educar, amar, dar-se aos filhos. É sofrer sem esperar retribuição. Tudo isso é duro, mas isso é ser mãe. Isso é buscar o outro por causa do outro, para fazer o outro grande por dentro.

Há mães que não têm amor pelos filhos. Os filhos parecem ser um mal necessário ao casamento. Os filhos são apenas um “peso”. Ser mãe é transformar o peso dos filhos em sentido de sua vida. Ser mãe é pensar nos outros e não em si mesma. Ser mãe é ser uma contínua heroína...”

Mulher se fores mãe, orgulha-te, pois “uma mulher pode ser mãe de uma nação inteira”.

Apresentação

Eis-me aqui, às margens, ou seria praia, de um mundo novo. Sempre escrevi aos ventos e, agora, posso escrever no ar de todo o planeta. Tenho participado, com a aquiescência e beneplácido do jornalista Aloísio Nunes, do portal www.jornaldearaguari.blogspot.com há algum tempo e, como seguidor fervoroso do mesmo, tive visitas em meu perfil por mais de sessenta vezes. Tais pessoas viram-se frustradas, pois deram de cara com uma foto três por quatro e nada mais. Então em consideração a elas venho tentar edificar um canto com poucas e boas, dito e feito. Quem é Aristeu? Vamos descobrir juntos. O nome Palavras Emendadas refere-se a uma coluna que o Aloísio, velho dadivoso, criou para mim no antigo blog "Panorama Araguari". Tal nome tem como origem um local em Brasília, cidade que residi por mais de duas décadas, que se chama "Águas emendadas". Este local, no plano mais alto, manda suas águas para todas as direções; alimenta todas as nossas bacias e assim, eu sonhador, gostaria que minhas palavras emendadas jorrassem por todas as direções. A crônica é minha doença. Minha doença é crônica.